Voltar

22 de março – Dia Mundial da Água

20 de Março de 2020

A marca que um pé deixa sobre a terra fofa ou na areia da praia nos fala de uma presença que talvez nem esteja mais lá, mas imprimiu um rastro, uma pegada. Uma evidência que, mesmo sem palavras, ajuda a reconstituir uma história: a velocidade do passo, o peso do corpo, o instante provável da passagem daquele pé por ali. Não por acaso, o termo "pegada" tem sido usado com frequência nas situações em que se avaliam os impactos, geralmente ambientais, decorrentes da produção de bens de consumo, ao longo de todo o ciclo de vida (ou a história) de um produto. Às vésperas do Dia Mundial da Água, nada mais natural que falar sobre pegada hídrica.



Há exatamente um ano, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) se engajou a uma iniciativa que tinha por meta estimar o quanto de água representa a vida útil de uma calça jeans, desde a lavoura até o nosso guarda-roupas. O desafio foi proposto pelo movimento Ecoera, e encampado pela indústria têxtil Vicunha, junto com a consultoria em sustentabilidade H2O Company e a Iniciativa Verde. A Abrapa e suas estaduais contribuíram com informações sobre o modo de produção nacional da fibra, reconhecido como um dos mais sustentáveis do mundo quanto ao uso da água, já que praticamente toda a produção da matéria-prima utiliza apenas a água da chuva, num modelo conhecido como "sequeiro".



Em outras palavras, na lavoura, na safra considerada no estudo – plantada em 2018 e colhida em 2019 – somente 8% da água, que fez com que as plantas se desenvolvessem e fornecessem a pluma que será transformada na indústria têxtil, vieram de cursos d'água como rios e lençóis freáticos através de sistemas de irrigação. Os demais 92% caíram do céu, pelas graças da natureza do cerrado, bioma que se ajusta certinho às demandas do algodoeiro: chuva no plantio e desenvolvimento, e seca na colheita.



"A água, assim como a terra, são os grandes ativos de um agricultor.  Por isso, a gente tem de cuidar desse patrimônio natural, para garantir que continuaremos na atividade por muito tempo, e os nossos filhos e netos – se quiserem – podem também dar seguimento ao negócio", pondera o presidente da Abrapa, Milton Garbugio.



Mas, para a surpresa de muitos, do número alcançado ao final do estudo, 5.196 litros por calça jeans, uma significativa parcela do recurso hídrico utilizado – 4.247 litros/calça jeans – cabe aos produtores rurais, mesmo que eles não abram a torneira. Depois de conversar com Claudio Mendonça, sócio-diretor da H2O Company, empresa responsável pela metodologia utilizada na mensuração, essa conta fica fácil de entender.



Verde, azul e cinza


O número final de litros por calça jeans produzida, em si, diz pouco. É preciso analisá-lo por um prisma de três cores: azul, verde e cinza.  São indicadores utilizados na conta, que considera não apenas a quantidade do uso em litros para fazer uma calça jeans, mas a "natureza" desse uso. A água que vem da chuva, a que é captada dos rios, a que volta para os rios pelos esgotos industriais, a evaporada após a chuva na lavoura, aquela que gastamos todas as vezes em que lavamos a peça em nossas casas, dentre outras.


De acordo com o estudo, a pegada da cotonicultura é predominantemente verde. A água da chuva representa 50% na ponderação dos três indicadores. De todas as etapas da produção analisadas – plantio, tecelagem, confecção, lavanderias, consumidor e pós-consumo – esta cor aparece apenas na produção agrícola. "O cultivo com água de chuva, representado pela pegada verde, é um diferencial muito positivo do algodão brasileiro", ressalta Claudio Mendonça.



Não adianta nada tentar comparar o número final (5.196 litros/calça jeans) aos resultados obtidos em outros países. "Cada lugar de produção tem características específicas. O importante é conhecer a necessidade de água na sua própria região, avaliar a disponibilidade do recurso e garantir o uso mais eficiente", adverte Mendonça.



A pegada hídrica verde representa a água de chuva absorvida pelas plantas. A cinza é a água que a natureza precisa dispor para diluir os poluentes do processo produtivo quando ela volta para a natureza. Já a azul é a captada nos cursos d'água, descontando a que é devolvida no mesmo local, ou seja, considera-se a água evaporada ou devolvida em um lugar diferente de onde foi captada. Por exemplo, a chuva ou a irrigação molham a terra. Uma parte do líquido é absorvida e evapotranspirada pelas plantas, voltando para as nuvens em forma de vapor. É aí que contabilizamos a água verde (chuva) e azul (irrigação) do processo agrícola. Já a outra porção da água não absorvida pelas plantas, segue para os rios, através do escoamento superficial ou infiltração pela terra até o lençol freático, que é subterrâneo. Caso a água escoada contenha micropartículas de produtos químicos, como fertilizantes ou defensivos usados na lavoura, mais cedo ou mais tarde, essa água vai chegar aos rios, demandando água cinza para a diluição de eventuais poluentes que chegam até lá.



A questão, segundo Cláudio Mendonça, é que, seja pelo escoamento, conhecido como lixiviação, ou através dos esgotos industriais ou domésticos, esses poluentes vão demandar uma certa quantidade de água para ser diluídos na natureza, o que chamamos de água cinza. E quanto maior for a quantidade de resíduos, mais água será necessária para os rios conseguirem assimilá-los. Numa comparação bem banal, é como o açúcar que se acumula no fundo de uma xicara de café quando a gente exagera um pouco na quantidade. Ele não desaparece, ainda que se mexa muito com a colherinha. O princípio é exatamente o mesmo. Existe um ponto de saturação para diluir elementos na água e, quando é atingido, não há nada que resolva além de mais... água.



Medir para gerir



Conhecer a pegada hídrica, então, tem mais a ver com descobrir o quanto desse recurso natural será necessário para fazer com que uma atividade produtiva permaneça por muitos e muitos anos e, assim, agir de modo a garantir a manutenção desse insumo, que é natural, e cujo uso tem repercussão social e econômica também. Basicamente, é mensurar para melhor administrar.



"O Brasil tem uma condição muito especial em sua localização geográfica que determina um regime de chuvas muito favorável ao algodão, nas áreas onde atualmente ele é plantado, no centro-oeste do país.  Estamos na mesma faixa latitudinal de continentes e países com desertos, como África, Austrália e Chile, e, no entanto, somos ricos em água doce. Isso se deve à influência da Floresta Amazônica e da cordilheira dos Andes, através dos chamados "rios voadores", que direcionam as nuvens da Amazônia para o Centro-Oeste brasileiro. Conhecer a pegada hídrica de uma calça jeans nos ajuda a tomar decisões e a entender a importância da preservação desse sistema", afirma. Mendonça explica que a manutenção da floresta é decisiva para a permanência do regime de chuvas no cerrado, e, consequentemente, para a sustentabilidade da cotonicultura.



Ferramenta



Na pegada hídrica de uma calça jeans, todo mundo faz parte do "pé" que deixa a sua marca. Logo, tem responsabilidade nesse número. Para a fundadora do Movimento Ecoera e consultora de sustentabilidade, Chiara Gadaleta, de nada adianta conhecer a pegada e guardar o número na gaveta. "Essa ferramenta não foi feita para ficar parada. Por isso, criamos a plataforma A Moda Pela Água, na qual a Abrapa e o movimento Sou de Algodão têm destaque, e onde participam diversas empresas que chamamos de Guardiãs da Água. Ela serve para que a gente converse sobre o quanto e o como usamos o recurso, e para que juntos encontremos soluções de forma setorial", explica.



E por que a calça jeans?


 


Segundo Chiara Gadaleta, o clássico e democrático azul venceu a disputa contra a elegância casual da camiseta branca, como a peça querida dos brasileiros. "Fizemos pesquisas e entendemos que ele poderia ser protagonista dessa narrativa, para que pudéssemos começar a falar em pegada hídrica. A gente inaugurou um capítulo sobre o consumo de água na indústria da moda no Brasil, graças ao investimento que a Vicunha fez na metodologia e numa equipe de quatro empresas, que, em dez meses, foi a campo colocar em prática a metodologia da Water Footprint", relata.  "Não dá pra falar de jeans sem tratar de algodão. E o Algodão Brasileiro Responsável (ABR), programa da Abrapa, implantado por suas associadas, tem atributos muito interessantes e significativos", complementa. Chiara lembra que essa é a primeira vez que se fala de um número nacional de pegada hídrica na calça jeans. "Vivíamos repetindo números de outros países, totalmente descolados da nossa realidade", conclui.



Uma das mais tradicionais indústrias de denim no Brasil, a Vicunha abraçou o projeto, já que conhece de perto os temores de um déficit hídrico. "Com unidades instaladas no Nordeste, a preocupação com o uso responsável da água sempre fez parte da nossa estratégia, que engloba uma ampla plataforma de negócios sustentáveis, pautada pelo compromisso com a gestão de recursos escassos. Ao investirmos


em projetos como a Pegada Hídrica Vicunha, queremos colaborar para a troca de informações e união do setor, com transparência, ética e responsabilidade", afirma Marcel Imaizumi, diretor executivo Operações, Supply Chain e Novos Negócios da Vicunha.

Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Mulheres ressignificam o consumo de algodão

06 de Março de 2020

Uma pesquisa encomendada pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) à Markestrat, em 2014, levantou que, do público consumidor de roupas de algodão no Brasil, as mulheres eram, de longe, a menor fatia. O algodão entrava em apenas 21% da composição de suas peças, contra 64% no caso dos homens e 83% na faixa infanto-juvenil. Os números sugerem diversas leituras, desde a opção pela praticidade de vestir roupas que "não amassem", sequem rapidamente ou permitam acompanhar as tendências da moda sem grandes investimentos financeiros, até mesmo a renúncia de algo que poderia ser melhor para si, em favor dos filhos. Uma escolha que vai contra a recomendação dos médicos, que, há muito tempo, afirmam que roupas, sobretudo as íntimas, feitas de algodão são a opção mais saudável para o corpo feminino.



"A região genital feminina, por ser naturalmente úmida, pede cuidados específicos, como o uso de roupas íntimas à base de algodão. Esse material permite a evaporação do suor mais facilmente que os sintéticos, o que dificulta a instalação de algumas infeções como a candidíase, que é muito desconfortável. Sendo natural, o algodão também diminui o risco de alergias. Lembrando que não basta ser de algodão, as peças têm de ser confortáveis também na modelagem", diz a ginecologista Andrea Calmon.



A preocupação com a matéria-prima das roupas e a saúde fala mais alto para as mulheres, quando se trata de produtos para os filhos. Isso explica por que o algodão está presente em mais de 80% das peças de roupas compradas para bebês, crianças e adolescentes.



Um tecido natural, confortável, que permita à pele respirar e seja também amigável ao meio ambiente era o que Raquel S. procurava ao fazer o enxoval do segundo filho.  Pelas suas contas, gastaria em torno de mil reais com fraldas de tecido e ecológicas para o caçula José, com base na experiência pessoal com o mais velho, João. As chamadas de ecológicas são laváveis, feitas de tecido tecnológico por fora com forro de algodão nas partes que entram em contato com a pele do bebê.



"Nos primeiros meses, um bebê gasta de cinco a oito fradas por dia. Considerando uma das não tão caras, que saem por volta de setenta centavos, seriam R$ 3,2 mil em dois anos e meio, tempo médio de desfralde", considera. Contudo, mesmo para a diretora de crescimento de uma startup, as cifras não foram nem de longe a razão da escolha. "Eu ficava aflita, imaginando o tanto de fralda que a gente descarta por dia com uma única criança. Cada uma delas vai demorar uns 400 anos para se degradar na natureza. Ponderei muito sobre praticidade, mas hoje vejo que é muito tranquilo. Além disso é mais saudável para o bebê", avalia.



Para muitas mulheres, entretanto, o algodão tem sido não apenas uma opção de consumo saudável e ecológico, mas uma ferramenta para a realização de sonhos. E a crescente conscientização do mercado para a sustentabilidade – social, ambiental e econômica – tem ajudado, incrementando a demanda no ponto de venda, o que reverbera em toda a cadeia produtiva. Mas nem precisa ser mulher para perceber o quão difícil é encontrar, no dia a dia, roupas em algodão que possam ir além do básico, seja para arrasar no baile ou seduzir.


Heloísa Barbante de Melo (56) e a sócia Lígia Dalla Stella (57) entenderam os sinais dessa tendência e a transformaram em negócio. Elas são donas da marca Alices, especializada em roupa íntima 100% algodão. O nome da empresa não é casual. "Era assim que nossos antigos maridos se referiam a nós por causa do nosso sonho de empreender: as 'Alices'. Para eles, vivíamos no 'país das maravilhas'", relembra. Por um tempo, elas optaram por estar fora do mercado de trabalho para se dedicar à educação dos filhos. "Nunca nos arrependemos. Hoje eles estão muito bem encaminhados, e, em 2017, quando tomamos coragem para empreender, eles nos apoiaram muito.", diz.



Heloísa e Lígia acreditaram no projeto e levaram pelo menos um ano para desenvolver os protótipos. Queriam criar peças bonitas e duráveis, para mulheres confiantes e seguras do próprio corpo. "Acreditamos que faltavam opções de roupas íntimas que unissem o conforto do algodão 100% a modelos bonitos e elegantes. A mulher confiante não busca seduzir. Ela procura conforto e bem-estar. Por isso, optamos por aliar o tecido 100% algodão a rendas e tules de excelente qualidade, somente em áreas como as laterais, que não estão diretamente em contato com as partes mais sensíveis do corpo feminino", explica. A marca é uma das 170 parceiras do movimento Sou de Algodão, da Abrapa, e a comercialização das peças é basicamente virtual, pelo Instagram @alicesroupaintima.


Foram dez anos de dilema até assumir que trocaria os quatro anos de faculdade e outros tantos no mercado, como jornalista, pela sua grande paixão, o crochê. A arte que aprendeu ainda menina com uma tia-avó era sempre a terapia para os momentos de stress da trabalhadora compulsiva. Desde os sete anos de idade, Simone Seara (42) esquecia da vida ou dava vazão às ansiedades entre linhas coloridas de algodão. Ela sempre gostou de inventar pontos novos, criando um estilo todo próprio para as bolsas, carteiras, paninhos e o que mais lhe ocorresse, no momento em que a linha começava a ganhar forma na ponta da agulha. Mas daí até chegar à "Mimo", sua primeira experiência como microempresária, foram muitos pontos e nós.



Quando o primeiro filho, Mathias (6) chegou, após algumas tentativas e muito investimento financeiro e emocional, decidiu parar o trabalho para cuidar dele. Estava quase voltando ao mercado de trabalho, mas descobriu que Cecília (3) estava a caminho, totalmente de surpresa. Dessa vez, sem nenhuma ajuda da ciência. Foi justamente com a pequena, apaixonada por adereços de cabeça como "tiaras", que veio o insight. "Um dia, peguei uma tiara velhinha e resolvi desmanchar para obter apenas o arco e encapá-lo com crochê. Ela adorou", afirma. E criou flores, ursos e mais um sem fim de bichinhos feitos à mão, com a técnica, em 100% algodão. O sonho virou projeto. "Primeiro, precisava testar a aceitação e tinha para isso o 'laboratório' ideal:  o grupo de mães da escola e o das que frequentam as atividades extracurriculares das crianças, como o futebol", conta.



Na propaganda boca a boca, os pedidos foram crescendo e Simone precisou acelerar a produção. Hoje já se prepara para dividir o trabalho. Seu turno começa sempre depois das 20h, após o dia de correrias e obrigações de uma mãe que não conta com o suporte de babás e diaristas. "Durante o dia, aproveito o tempo entre uma atividade e outra deles, e faço as tiaras de crochê até enquanto espero o portão da escola abrir", revela. O trabalho é artesanal e minucioso.  Em média, ela consegue fazer apenas cinco peças ao dia. "É muito menos do que me demandam", calcula.



O dinheiro que ganha ainda não cobre as despesas da casa, mas garante custos como os dos taxis que ela precisa tomar levar as crianças para a escola, as eventuais consultas e muitas atividades.


"Dentro da minha própria família, percebi o preconceito por querer cuidar dos filhos e trocar uma carreira por uma atividade artesanal.  No início me incomodava e respondia aos questionamentos como se devesse satisfação a essas pessoas. Depois que eu comecei a ver a importância que eu tinha na formação dos meus filhos, passei a enxergar meu papel com outros olhos: na verdade sou privilegiada de poder dispor desse tempo. Quanto ao crochê, nunca me senti tão feliz com um trabalho como finalmente me sinto agora", ela diz. Por enquanto, vendas só pessoalmente e pelo instagram @mimosimoneseara.


Empreender, para Amanda Santos (29), não foi uma opção: era a única via para dedicar tempo e garantir renda para a família, quando a maternidade chegou sem ser esperada e com alguns requisitos extras. Era 2013, quando as gêmeas nasceram. Uma delas, com uma condição de saúde que a obrigava a constantes internações, a hidrocefalia. "Via as histórias de empreendedorismo e pensei: dá certo para todo mundo e vai ser assim também comigo". Amanda criou a "Menina Galhofeira", marca de roupas infantis feitas em algodão, que ela vendia em feiras voltadas para as classes A e B. Só que, bem mais que as roupas, quem acabou fazendo sucesso foram as sacolas especiais de algodão cru que ela costurava e personalizava para acondicionar os produtos.



"As clientes falavam em sustentabilidade, em consciência ecológica, e eu não havia mirado naquilo. Onde eu moro, a Zona Leste de São Paulo, isso não era nem uma demanda. Fui pesquisar e me apaixonei pelo tema", diz. Hoje a sustentabilidade, junto com empreendedorismo, maternidade e a possibilidade de inserir a consciência ecológica nas pequenas empresas viraram o manifesto da Ideia Crua, a quinta e exitosa experiência de Amanda no mundo dos negócios. Dessa vez, as estrelas são as "ecobags" personalizadas de algodão cru.



"Ninguém conta para a gente que empreender não é só glamour", desabafa. E quando se trata de empreendedorismo feminino, isso pode ser ainda mais complicado.  "No ramo de estamparia e confecção, as posições de decisão são sempre de homens, e, para eles, eu não sabia o que estava fazendo", lembra. Durante um ano, assumia sozinha todas as etapas da produção. Hoje emprega sete pessoas em um galpão próprio, de 350 metros quadrados. "Fica em frente à escola das minhas filhas, o que facilitou bastante. Consumir produtos e serviços localmente, nos nossos próprios bairros, faz toda a diferença. Estamos sempre juntas", comemora.



Para dar oportunidade a outras pessoas da comunidade, Amanda está lançando o projeto Guilda, que vai ensiná-las a trabalhar com máquinas industriais de confecção. A ideia por trás do projeto ainda nem era um conceito nas associações de artesãos da Idade Média que inspiraram o nome da iniciativa social. Mas, como aquelas, seu objetivo é "empoderar" pessoas com interesses comuns, dando a elas mais chances e oportunidades contra o desemprego e outras vulnerabilidades. "Assim, podem ter uma renda extra e ainda estar prontos para quando eventualmente precisarmos expandir a empresa", explica. Se ela dá preferência às mulheres nesses treinamentos e nas contrações? "Não é preciso. Basicamente, as mulheres são a realidade. É com elas que trabalho", finaliza.


Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Impostos ao Agro

21 de Fevereiro de 2020

O empenho da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, do presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, Alceu Moreira, e do senador Luiz Carlos Heinze para desonerar o agronegócio e evitar riscos à competitividade do setor foi reconhecido pelo vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Júlio Cézar Busato, ontem, 19/01, durante seminário na sede do Ministério da Agricultura, em Brasília.


Intitulado “Tributação no Agro: Aspectos da Competitividade”, o evento destacou, entre outros assuntos, a pauta das reformas tributária e fiscal, cujos impactos sobre a produção agrícola podem trazer graves consequências, como aumento nos custos produtivos, desemprego, e, em última instância, preços dos alimentos mais altos para o consumidor final.


“Juntos, nós agricultores, Mapa e parlamentares do agro, estamos buscando formas para evitar que o setor seja mais penalizado. Acreditamos que, com a reforma administrativa, o Governo possa reduzir seus gastos e ser mais eficiente”, afirmou Busato, que preside a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa).


Segundo Busato, para os segmentos da agropecuária que exportam, como é o caso do algodão e da soja, o aumento da carga tributária tem ainda o agravante de reduzir a rentabilidade do produtor, que, ao contrário de outros setores, não definem o preço dos seus produtos. Portanto, não podem repassar os aumentos para os consumidores diretos. “Sobretaxar commodities agrícolas significa exportar impostos. Isso é inconcebível”, conclui.

Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Cotonicultores brasileiros conhecem a fábrica da Tama, na Bahia

20 de Fevereiro de 2020

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Milton Garbugio, e uma comitiva de dirigentes das associações estaduais e executivos das entidades, visitou hoje, 20/02, a fábrica brasileira da empresa israelense Tama, instalada, desde 2014, no município de Feira de Santana, na Bahia. A companhia é a fabricante exclusiva dos filmes plásticos TamaWrap para as colheitadeiras John Deere 7760 e CP 690. Os fardos cilíndricos, envoltos no plástico amarelo, são considerados uma revolução no modo de colher a fibra em todo o mundo. Estima-se que produto já tenha participação em cerca de 85% da safra brasileira de algodão. A unidade na Bahia, a única a produzir o TamaWrap fora de Israel, supre a demanda do Brasil, da Argentina e da África. Atualmente, sua capacidade produtiva é de 3,3 milhões de unidades do produto ao ano. Cada unidade representa um fardo de algodão no campo.



Na visita, os produtores aproveitaram a oportunidade para falar de iniciativas que já desenvolvem e contam com o apoio – dentre outras empresas – da companhia, como o movimento Sou de Algodão, que entrou no quarto ano de atividade. Em 2018, a Tama desenvolveu uma campanha engajada ao movimento. "Fizemos uma série especial do TamaWrap com tiragem suficiente para enfardar, aproximadamente, 1950 fardos com a logomarca do Sou de Algodão. Esses cilindros customizados ficavam à beira das rodovias, na Bahia e no Mato Grosso, e chamavam atenção de quem passava pela estrada", lembra o gerente de Vendas e Marketing da Tama Brasil, Bruno Caetano Franco. O movimento Sou de Algodão é uma iniciativa liderada pela Abrapa, com ênfase em sustentabilidade, que visa a divulgar os atributos positivos da fibra natural e conquistar mais espaço na preferência do consumidor brasileiro.



"Quando a John Deere e a Tama uniram suas tecnologias, revolucionaram o jeito de colher algodão. Esse novo modelo mudou tudo, desde o tempo que a gente leva na colheita até a logística. Foi muito bom ver de perto como essas embalagens são produzidas. São produtos de alto valor agregado, e custo alto também, mas que representam mais qualidade e agilidade no processo", afirmou Milton Garbugio.



"Abrir a porta para o produtor nos permite entender suas demandas e trabalhar conjuntamente no desenvolvimento das soluções que precisam", completa Bruno Caetano Franco. Segundo ele, para esta safra, a empresa está trabalhando numa embalagem alternativa, projetada para a armazenagem do algodão por períodos de três a quatro meses. "Trata-se ainda um projeto piloto, com produção limitada a 150 mil unidades e preço reduzido em comparação ao tradicional", revela. A Tama nasceu no Kibbutz Mishmar Ha'Emek, em Israel, comunidade agrícola, e tem 70 anos de expertise no desenvolvimento de produtos para o enfardamento de cultivos.

Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Convênio 100 e Decreto 10139/2019 em pauta na primeira reunião da Câmara Temática de Insumos Agropecuários

18 de Fevereiro de 2020

A Câmara Temática de Insumos Agropecuários do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) reuniu-se ontem (17/02), pela primeira vez este ano, em Brasília. Na pauta extensa, que contou com o suporte de alguns especialistas convidados, questões que hoje ameaçam a competitividade brasileira ou atravancam a produção rural. Dentre os tópicos em questão, o excesso de instruções normativas e portarias não mais aplicáveis, mas ainda ativas, no Ministério da Agricultura, que são objeto do Decreto 10139/2019. Além deste, a possibilidade de extinção do Convênio 100/97, que concede redução de 60% da base de cálculo do ICMS de defensivos químicos nas saídas interestaduais e também nas operações internas envolvendo os produtos.



De acordo o presidente da Câmara de Insumos, vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Júlio Cézar Busato, estima-se que, atualmente, existam em torno de 110 mil instruções normativas e portarias em vigor no Mapa. "Muitas dessas não servem mais para nada. Não se aplicam no contexto atual, mas interferem no nosso trabalho. O que estamos sugerindo ao Mapa é uma revisão desse conteúdo, o que também vale para outras instâncias, como o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama", afirma Busato, que também preside a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). Para falar sobre o tema, foram convidados o Advogado da Advocacia Geral da União (AGU), César Kirsch e o superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno B. Lucchi.



 Custos podem subir



Aumento no custo dos alimentos para o consumidor final e redução de rentabilidade para produtores rurais são alguns dos riscos que virão a reboque de uma possível extinção do Convênio 100. No caso dos cotonicultores, a perda de rentabilidade seria em torno de 11%. Já para algumas culturas, com a do arroz, o fim da isenção pode culminar a inviabilidade total da atividade. A ameaça também foi debatida na Câmara de Insumos. Busato ressalta que os produtores de algodão sentirão fortemente esses efeitos, mas não apenas eles.



"Salvo em raríssimos casos, é impossível fazer agricultura no Brasil sem defensivos. Acabar com a isenção é dar um tiro no pé, pois a produção agrícola brasileira deu um salto nos últimos 35 anos, justamente porque começou a ter acesso a tecnologias de combate a pragas e doenças, impulsionada pelo Convênio 100. Estados que hoje são fortes no agronegócio brasileiro só se desenvolveram após essa medida. Ao tentar acabar com o benefício, esses estados, ao invés de arrecadar mais, irão ter grandes perdas e prejuízos", defende Júlio Busato.



O vice-presidente da Abrapa enfatiza que, ao contrário de outros setores, como a indústria e o comércio, os agricultores que exportam não têm como repassar esses aumentos de custos aos seus clientes, pois o preço não é formado por eles, mas pelo mercado. "É impensável exportar impostos", contesta.

Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Programa Mais Algodão conclui atividades no Peru com foco no bicudo-do-algodoeiro

17 de Fevereiro de 2020

Com uma série de reuniões em Lima, no Peru, entre os dias 11 e 14 de fevereiro, vão chegando ao fim as atividades de cooperação internacional para o fortalecimento da cotonicultura nos países do Mercosul, Haiti e África Subsaariana, meta do programa Mais Algodão. O Peru, internacionalmente conhecido por seu algodão de fibra extralonga, cultivado em mini e pequenas propriedades, espelha-se no exemplo do Brasil para o controle do bicudo-do-algodoeiro, bem como em outras iniciativas positivas do país, que hoje é o quarto maior produtor e o segundo exportador mundial da pluma. Isso se dá, tanto na área de pesquisa científica e difusão de tecnologia, como na orientação para a instituição de modelos positivos de associativismo, gestão e governança, parâmetros fornecidos pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).


De acordo com o diretor executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero, o compartilhamento de informações é essencial para fomentar a cotonicultura peruana, que já contabilizou cerca de 200 mil hectares de lavouras de algodão e hoje tem apenas em torno de 18 mil hectares. “O projeto chega ao fim neste ano de 2020 e cada país beneficiário vai transformar as informações que recebeu em um plano de gestão, que deverá ser submetido ao governo. Este, por sua vez, irá implantá-lo, destinando, para isso, recursos orçamentários”, detalha o diretor da Abrapa.


Portocarrero diz que o algodão Pima peruano é conhecido por sua excelente qualidade e entra no blend das indústrias toda vez que se deseja alcançar tecidos diferenciados. “Entretanto, o modelo de produção deles é familiar, e a quantidade é muito pequena. Incrementar a cotonicultura lá ajuda aumentar a demanda por algodão nesse nicho de mercado de tecidos especiais”, explica.


O foco das reuniões de encerramento do programa foi o bicudo-do-algodoeiro, principal praga da cultura no Brasil, mas uma preocupação menor no Peru. “O bicudo peruano é menos agressivo que o mexicano, que é o que quase exterminou a atividade nos anos 90 no Brasil e que segue sendo uma ameaça por aqui. Mas, claro, que lá ele também exige monitoramento e combate”, diz. Para o diretor, os resultados verificados no Peru foram muito positivos.


Além da Abrapa, o Projeto Mais Algodão conta com a participação da Embrapa e da Emater, respectivamente, no apoio à difusão tecnológica, pesquisa e assistência técnica. Os signatários do projeto, junto com a associação, são o Ministério das Relações Exteriores do Brasil /Agência de Brasileira de Cooperação (MRE/ABC), o Instituto Brasileiro do Algodão (IBA) e o Escritório da FAO para a América Latina e Caribe. Esta iniciativa surgiu, em 2012, como contrapartida brasileira às ações reparatórias ao Brasil, resultantes do acordo relativo ao contencioso do algodão, no qual o país saiu vitorioso em contenda histórica contra os subsídios americanos no âmbito da OMC.


Durante a visita ao Peru, Marcio Portocarrero e os representantes da Embrapa e da Emater fizeram diversas visitas, que incluíram a Embaixada Brasileira e os órgãos de pesquisa, extensão rural e vigilância fitossanitária do Peru. Eles puderam ver os resultados alcançados com os ensaios, os materiais desenvolvidos, e, também discutiram a aplicação dessas informações para o fortalecimento da cotonicultura naquele país.  “Creio que o elo que faltava da parte do governo peruano era a extensão rural. É necessário um projeto para continuar o trabalho que vem sendo feito desde 2012, e para fazer esses resultados chegarem ao produtor e suas cooperativas”, concluiu o executivo.

Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Safra 2019/2020 promete repetir sucesso de 2018/2019

14 de Fevereiro de 2020

Chegando à metade do ano safra 2019/2020, a expectativa dos produtores, exportadores e especialistas de mercado de algodão é de um bom ciclo para a fibra em produção e produtividade, repetindo a performance do setor em 2018/2019. O Brasil deve colher 2,8 milhões de toneladas e tem o desafio de exportação de 1,95 milhão de toneladas. Estes temas e as incertezas sobre os possíveis impactos do coronavírus e do acordo comercial entre Estados Unidos e China foram discutidos nesta quinta-feira (13/01), em Brasília, no 14º Encontro de Previsão de Safra, promovido pela Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) e pela Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea).



O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Milton Garbugio, e representantes dos diversos estados cotonicultores do Brasil estiveram presentes ao evento, que também avaliou a performance para a soja e o milho no país. A abertura do evento contou com a palavra da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina e do diretor do departamento de Promoção do Agronegócio do Ministério das Relações Exteriores, Alexandre Peña Ghisleni.



"Este encontro é muito importante, já que faz um raio X da safra e da conjuntura de mercado, o que pode balizar muitas das nossas decisões, não apenas para o ciclo que está em curso, como para o próximo", considera Garbugio. De acordo com o presidente da Abrapa, após o plantio dentro de uma janela climática favorável, as lavouras estão se desenvolvendo conforme o esperado. Ele destaca os números históricos alcançados nas exportações, com destaque para o mês de janeiro, em que o país embarcou 309 mil toneladas de pluma. "Muito além do que esperávamos", comemora.



Recordes


Para o presidente da Anea, Henrique Snitcovski, três marcas importantes para o setor de algodão já foram alcançadas nesta safra.  "Só no segundo semestre de 2019, o Brasil bateu um recorde, exportando mais de um milhão de toneladas em seis meses. Durante o segundo semestre do ano passado, em um único mês, também registrou um recorde de 288 mil toneladas. Se a gente acrescentar o volume que foi embarcado em janeiro, tudo o que o Brasil já exportou de julho até janeiro é mais do que o fez em outras safras, no período do ciclo completo, que vai de julho até junho de todo ano", revela.



O coronavírus é hoje uma grande discussão do setor, pois a Ásia representa mais de 85% das exportações brasileiras de algodão. De acordo Snitcovski, os embarques brasileiros da pluma até o momento não foram impactados.



Demanda global


Para o palestrante convidado, Marcos Rubin, a necessidade de reversão da tendência de queda de consumo global de algodão, hoje em torno de 26 milhões de toneladas, será essencial para atenuar possíveis efeitos do vírus sobre o mercado e também do acordo entre Estados Unidos e China. Atualmente, demanda e produção da pluma estão muito parecidas, após seis anos de consumo levemente mais alto. "Seria essencial ter uma demanda aquecida para lidar com uma guerra comercial, mas o cenário agora é de incertezas, principalmente, em relação ao coronavírus. Exportar 1,9 milhões de toneladas em 2020 coroaria um ano de sucesso do setor", diz.



"A gente tem constante revisões negativas de expectativa de consumo, muito provavelmente, derivadas da guerra comercial, e do próprio acordo dessa contenda entre Estados Unidos e China, que oferece um certo risco para os volumes de exportação do Brasil.  A China foi um grande parceiro em 2019 e precisa ser também em 2020. Mas para que as exportações sejam performadas, há a questão do coronavírus, para a qual não temos respostas de como isso pode se desenrolar daqui para a frente", pondera.




Câmbio


Segundo Rubin, o câmbio valorizado está compensando até mesmo quando os preços da commodity estão em torno de 75 centavos de dólar por libra-peso. "Ainda existe estímulo para expansão de área. Uma boa parte do setor de algodão está absorvendo os investimentos que foram feitos nos últimos três anos. Conforme esses investimentos se amortizam, o câmbio se torna um estimulante", diz.

Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Nem sempre é o que parece

06 de Fevereiro de 2020

Desde que lançou o movimento Sou de Algodão na São Paulo Fashion Week em outubro de 2016, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) estabeleceu e vem ampliando o contato com um elo da cadeia produtiva que, embora seja a razão de todo o trabalho desenvolvido pela cotonicultura, até então, tinha pouca ou nenhuma familiaridade com o processo produtivo da fibra, o consumidor final. Desde a estruturação do movimento, ouvir o cliente final, conhecer seus perfis, hábitos de consumo, causas e, principalmente, suas dúvidas, tem sido o balizador das estratégias da Abrapa para esclarecer a população sobre a fibra, considerada uma das mais inclusivas e sustentáveis dentre todos os seus concorrentes, sejam naturais, artificiais ou sintéticos.



O Sou de Algodão foi criado para fomentar o consumo da matéria-prima no mercado interno, valorizando seus diferenciais como sustentabilidade – ambiental, social e econômica – versatilidade, respirabilidade, conforto, o fato de ser antialérgico, dentre outros aspectos. "Um dos equívocos mais comuns que notamos nas nossas conversas com este consumidor final é a confusão entre sustentabilidade e orgânicos, como se um e outro fossem necessariamente a mesma coisa", diz o presidente da Abrapa, Milton Garbugio.



Equiparar os sentidos entre sustentabilidade e orgânicos é ainda mais complicado que tentar igualar bananas e laranjas, uma vez que orgânicos se referem a uma técnica de produção que não permite o uso de defensivos ou fertilizantes sintéticos (químicos) no processo, assim como de tecnologias como os transgênicos. Já a sustentabilidade é um conceito, baseado nos pilares ambiental, social e econômico, segundo o qual os recursos utilizados na produção têm de ser pensados de modo a atender à demanda presente e também à das futuras gerações, permitindo, inclusive, a longevidade da atividade produtiva.



"As duas palavras não apenas não têm o mesmo significado, como podem levar a conclusões opostas", antecipa o engenheiro agrônomo, doutor em produção vegetal e chefe-geral da Embrapa Algodão, Liv Severino. Um dos exemplos, diz respeito à relação entre as altas produtividades e a área necessária para a produção. "Se a produtividade é alta, a produção por hectare será maior, e menos área de lavouras serão necessárias para atender à demanda de consumo. Isso significa menos impactos ambientais", explica.



Fazendo as contas



O Brasil tem a maior produtividade em algodão do mundo, quando considerada a produção em sequeiro, que é a que não utiliza irrigação artificial. São, na média, 1,76 mil quilos de pluma (algodão beneficiado) por hectare. De acordo com diretor executivo do Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt), Alvaro Salles, a média obtida nos projetos de agricultura familiar financiados pelo Fundo de Apoio à Cultura do Algodão (Facual), com a algodão orgânico no Mato Grosso, são de 684 quilos de pluma por hectare. Considerando o consumo de algodão da indústria têxtil no Brasil, que é de 700 mil toneladas, para atender a esta demanda com a atual produtividade das lavouras de algodão brasileiras, são necessários 398 mil hectares.



"Se fosse com agricultura orgânica, a gente teria que cultivar 1,03 milhão de hectares, o que causaria impacto ambiental muito maior", afirma Liv Severino. Hoje, o Brasil não apenas atende completamente a necessidade da indústria têxtil em seu território, como exporta o excedente dos seus quase 3 milhões de toneladas de algodão, produzidos na safra 2018/2019, sendo o segundo maior exportador mundial de algodão, atrás apenas dos Estados Unidos.



Alvaro Salles destaca ainda um outro impacto negativo da agricultura orgânica. "Considerando que ela não pode usar transgênicos ou pesticidas para eliminar pragas, entre elas, a que devastou a cotonicultura brasileira nos anos de 1980, o bicudo do algodoeiro, o risco fitossanitário tornaria inviável a produção em larga escala". Segundo Salles, o bicudo é um besouro que se alimenta principalmente dos botões florais do algodoeiro, e, por conta disso, derruba a produtividade das lavouras. Pelo modelo orgânico de produção, a única forma de combater o bicudo seria com inimigos naturais, que são poucos, e cata manual seguida de incineração dos botões infestados. "Isso demanda em média 5 pessoas por hectare. Numa fazenda de 100 hectares, seria 20 pessoas. Uma família sozinha não consegue dar conta desse contingente para manter o monitoramento constante", argumenta.



Prospectando alternativas



Salles afirma que, no estado de Mato Grosso, o IMAmt tem buscado alternativas biológicas para combater pragas e doenças. "Estamos recolhendo amostras de solo, água, plantas e insetos atacados por microorganismos e levando estes materiais para os laboratórios, para isolamento e posterior estudo de viabilidade de utilização, como alternativa ao uso do controle químico", revela. A partir dessa iniciativa, segundo o diretor do IMAmt, foram implantadas duas biofábricas, e uma outra está em início de construção, para fornecimento de produtos biológicos aos produtores.



Sobre os transgênicos, Liv Severino da Embrapa acrescenta que são tecnologias que usam princípios naturais, da genética, que reduzem a quantidade necessárias de produtos químicos nas lavouras. Os pesticidas, por sua vez, são seguros quando considerado o manejo e quantidades corretas. "Querer fazer agricultura sem pesticidas é como fazer medicina sem remédios, como antibióticos, anti-inflamatórios e anestesia. "Quem se submeteria a uma cirurgia sem isso?", questiona.


Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Trade deal e coronavírus na pauta dos cotonicultores brasileiros

19 de Janeiro de 2020

O produtor brasileiro de algodão está atento, mas se mantém positivo em relação aos fatos que dominam o noticiário internacional nos últimos 15 dias, e têm como foco a China. Para a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), ainda é cedo para arriscar um prognóstico acerca dos efeitos, no mercado de algodão, do fim da guerra comercial entre Estados Unidos e China e também da epidemia de coronavírus. Este último derrubou, por três dias seguidos, os preços da commodity na semana passada. Em 2019, o Brasil alcançou a segunda posição no ranking mundial de países exportadores, e a China foi o destino de 34% do total de algodão nacional embarcado.


“Hoje é a China quem dá o ritmo do mercado no globo, e, literalmente, um espirro que vem de lá pode chacoalhar a economia mundial. Acreditamos que o trade deal não põe em risco a nossa posição, pois os Estados Unidos terão de ser competitivos para vender para a China na quantidade e qualidade que eles se propõem a comprar. Nossa safra já está plantada. Temos que ficar de olho nas notícias para balizar nossas decisões de plantio para a próxima safra”, afirma o presidente da Abrapa, Milton Garbugio. Ele explica que, nos últimos dois anos, o algodão brasileiro entrou fortemente no mercado chinês, ocupando o vácuo deixado pelos EUA, que, por sua vez, buscaram novas praças.


Quanto ao coronavírus, o presidente da Abrapa revela que esta é uma preocupação maior para os cotonicultores atualmente, pelo temor que a epidemia se agrave e alastre. A alta volatilidade marcou a terceira semana de janeiro, quando surgiram as primeiras notícias sobre a epidemia chinesa. Em apenas três dias, os preços em Nova Iorque variaram entre 69,12 e 71,25, fechando a semana em 70,05 centavos de libra-peso.


Multilateralismo


Em relação ao acordo entre Estados Unidos e China, o que mais preocupa o professor de agronegócio do Insper, Marcos Jank, é o risco de rompimento das conquistas de regulação do mercado mundial alcançadas desde o final da Segunda Guerra, que tinham na OMC o seu principal foro balizador. “Precisamos descobrir se esse acordo é compatível com as regras multilaterais de comércio da OMC. Elas foram assinadas por todos os países. Como é que as duas maiores economias mundiais se propõem a selar um pacto bilateral que pode claramente prejudicar os demais países?”, questiona.  “Passamos da busca do livre-comércio para a guerra comercial.  Agora estamos indo, depois desse acordo, para uma era de comércio administrado”, define. Jank teme que para aumentar as exportações de produtos agrícolas dos EUA para a China de US$16 bilhões em 2019 para US$ 36,5 bilhões em 2020, e US$ 44,5 bilhões em 2021, seja necessário criar canais privilegiados de comércio que não respeitarão a livre concorrência que hoje reina no mercado mundial.


Atenção e promoção


“A China tem o Brasil como um fornecedor estratégico e importante. Precisamos acompanhar de perto se haverá um movimento ‘mandatário’ que favoreça o algodão americano, considerando que o Brasil esteja competitivo em preço e qualidade no mesmo momento”, avalia o presidente da Anea, Henrique Snitcovski. Segundo ele, é importante lembrar que o algodão americano representou praticamente metade das importações da China antes da guerra comercial.



“Por outro lado, a China também aumenta a participação nas importações mundiais, voltando a assumir o posto de maior importador global já na temporada 2018/2019, seguida por Bangladesh e Vietnã”, pondera. Também para o presidente da Anea, a maior preocupação dos mercados hoje está voltada para os possíveis impactos no consumo e movimentação de mercadorias com o coronavírus. “Mais do que nunca, é importante esse esforço das entidades que representam a produção e a exportação da fibra, Abrapa e Anea, junto com o Governo Federal, para promover o produto no mercado asiático”, conclui.

Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter

Voltar

Rentabilidade, sustentabilidade e competitividade do algodão em debate na 78ª Reunião Plenaria do ICAC.

20 de Dezembro de 2019

Como faz desde a sua criação, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) participou este ano da concorrida Reunião Plenária do International Cotton Advisory Committee (ICAC).  Na 78ª edição, o evento foi realizado em Brisbane, na Australia, entre os dias 2 e 6 de dezembro. A associação se fez representar pelo seu ex-presidente, João Luíz Ribas Pessa, e outras lideranças da cotonicultura nacional também estiveram lá, como o presidente da Associação Mato-grossense dos Produtores de Algodão, Alexandre Schenkel, o também ex-presidente da Abrapa, Sergio De Marco, o diretor executivo da Ampa, Décio Tocantins, além do consultor da Abrapa e  responsável pela gestão do CSITC  do ICAC, Andrew Macdonald.


Ciceroneada pelo governo da Austrália e a indústria têxtil daquele país, a reunião contou com a presença de 307 pessoas, incluindo representantes de 23 governos membros, cinco organizações internacionais e cinco países não membros. Compondo o público, representantes de toda a cadeia produtiva da fibra de 30 países, como produtores, indústria, tradings, fornecedores de insumos e bancos de investimentos. As discussões se deram em torno das rápidas mudanças que ocorrem no ambiente da indústria global de algodão e os desafios que se impõem de continuarem sendo rentáveis, sustentáveis e competitivos.


Diversas reuniões aconteceram durante a programação do ICAC, e a Abrapa foi nominalmente convidada a participar de muitas delas, como a do Seep (Social, Environmental and Economic Performance), que ocorreu sob o comando de Allan Williams, da Organização de Pesquisa para o Algodão e Organização para o Desenvolvimento, da Austrália. Este painel organiza o programa Estrutura Delta (Delta Framework), no sentido de estabelecer um programa de pesquisa visando a sustentabilidade, tanto no aspecto ambiental como social.

Padronização


Dentre outras reuniões atendidas pela Abrapa, a do Commercial Standardization of Instrument Testing of Cotton (CSITC), moderada pelo seu presidente Andrew Macdonald. O CSITC é uma força-tarefa criada em 2003 para a padronização dos equipamentos utilizados para a classificação de algodão. Seu objetivo é controlar a variação de classificação nos diversos equipamentos, capacitar os laboratórios a continuamente monitorar os resultados das classificações, prover os laboratórios com análises detalhadas que os auxiliem a melhorar suas análises e dotar cada equipamento de um Resultado Abrangente de Avaliação (OER – Overall Evaluation Result.). Vários laboratórios brasileiros fazem parte do Round Test do CSITC, que envolve Bremen Institut e o USDA, sob a chancela do ICAC.


De acordo com Pessa, neste encontro foram apresentadas as estatísticas das últimas avaliações das classificações. “Pudemos notar que está havendo melhora na acuidade dos dados. Isso, que se percebe no âmbito nacional, com o programa Standard Brasil HVI (SBRHVI), é também um movimento mundial”, afirmou. Ainda segundo Pessa, Andrew McDonald, como nos encontros anteriores, propôs a adoção da classificação por estatística de vários fardos, considerando a dificuldade de se ter uma classificação coerente do fardo com apenas uma amostra, principalmente no caso do Brasil e seu algodão que não é irrigado.


“A colheita da parte superior da planta misturada com a da base, leva a alguma diferença na classificação. Se um lote de fardos for classificado e sua média for processada o resultado seria mais representativo. Este assunto vai continuar a ser debatido mais profundamente na próxima reunião, marcada para março de 2020, em Bremen”, concluiu. Na ocasião também foram feitas várias apresentações que mostram uma ação global visando a viabilidade da implantação da rastreabilidade da fibra, desde a produção até o consumidor final, passando por fiação, tecelagem, confecção e comercialização.

Quer ficar por dentro de tudo
que acontece no Portal Abrapa?

assine nossa newsletter