O cenário da safra brasileira, os desafios para ampliar o consumo interno e as exportações e a valorização das fibras naturais estiveram no centro dos debates da Reunião Ordinária da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão e Derivados, realizada nesta terça-feira (15), em formato híbrido.
Presidida por Gustavo Piccoli, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), a Câmara reuniu representantes dos diferentes elos da cadeia produtiva para analisar o atual momento da cotonicultura e discutir estratégias para ampliar a competitividade do algodão brasileiro nos mercados interno e internacional.
A agenda contou com apresentações da Abrapa, Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea).
Safra brasileira
Durante a reunião, a Abrapa apresentou a atualização da safra 2025/26. A estimativa é de aproximadamente 4,144 milhões de toneladas de pluma, em uma área plantada de 1,996 milhão de hectares. Segundo o diretor executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero, os números ainda poderão sofrer ajustes até o fechamento oficial da temporada.
Representantes das associações estaduais também apresentaram o andamento da colheita nas diferentes regiões produtoras. De maneira geral, foram relatadas boas produtividades e condições satisfatórias de produção, apesar de impactos pontuais relacionados ao regime de chuvas e à ocorrência de pragas. Dados do laboratório central apresentados durante a reunião também apontaram melhora nos diferentes fatores de qualidade do algodão brasileiro.
Para Piccoli, o momento reforça a necessidade de olhar para toda a cadeia diante do crescimento da produção brasileira. “O Brasil ampliou sua produção, conquistou espaço no mercado internacional e hoje ocupa uma posição estratégica no fornecimento mundial de algodão. Nosso desafio é continuar conquistando mercados, mas também criar condições para ampliar o consumo e a transformação dessa matéria-prima dentro do Brasil”, afirma o presidente da Abrapa.
Valorização das fibras naturais
Como destaque, a Abrapa apresentou a proposta de construção de um projeto de lei voltado à valorização das fibras naturais e ao enfrentamento da poluição por microplásticos.
A iniciativa prevê a criação de uma contribuição incidente sobre a importação de produtos têxteis acabados produzidos com fibras sintéticas. A proposta busca estimular o uso de fibras naturais, como o algodão, e destinar os recursos arrecadados a ações de inovação, sustentabilidade, mitigação da poluição por microplásticos, rastreabilidade ambiental e modernização industrial.
O diretor executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero, destacou que a entidade irá atuar para fortalecer a articulação da proposta na próxima legislatura e ampliar o diálogo com os diferentes elos da cadeia. “A intenção é aperfeiçoar a iniciativa e construir apoio para uma agenda que concilie competitividade da indústria brasileira, inovação e valorização das fibras naturais”, afirmou Portocarrero.
Indústria e mercado: mais espaço para o algodão brasileiro
A situação da indústria têxtil nacional também esteve no centro das discussões. O presidente da Abit, Fernando Valente Pimentel, apresentou um panorama do setor marcado pela retração da produção e pelo avanço das importações.
Entre janeiro e agosto de 2026, as importações brasileiras de vestuário cresceram 50,3% em relação ao mesmo período de 2025. No acumulado de 12 meses, a produção têxtil apresentou retração de 1,9%, enquanto a produção de vestuário caiu 4,2%.
Pimentel explicou que entre os desafios está ampliar o consumo interno de algodão para aproximadamente 1 milhão de toneladas, estimulando investimentos capazes de transformar uma parcela maior da matéria-prima dentro do país.
Já no mercado externo, a Anea apresentou perspectiva de novo recorde das exportações brasileiras na próxima temporada. A entidade estima a produção nacional em aproximadamente 4,178 milhões de toneladas, número próximo à projeção apresentada pela Abrapa.
Apesar das boas perspectivas, o cenário exige atenção. Segundo o presidente da Anea, Dawid Wajs, o Brasil permanece competitivo no mercado internacional, mas enfrenta desafios para o escoamento de uma safra elevada, em um cenário de compradores mais cautelosos e maior disputa pelos mercados. A diversificação dos portos utilizados para os embarques, com destaque para o crescimento de Salvador como alternativa a Santos, também foi apontada como estratégica.
Ao final da reunião, os participantes reforçaram a importância da atuação integrada da cadeia produtiva, com investimentos em pesquisa, inovação, sustentabilidade, novos usos e agregação de valor ao algodão brasileiro.
A próxima reunião ordinária da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão e Derivados está prevista para 9 de dezembro de 2026.









