O setor de cotonicultura comemora recordes na produção e exportação de algodão em pluma na safra 2024/2025, o que não apenas consolida a posição do Brasil como terceiro maior produtor mundial da fibra, mas também confirma a sua liderança nas exportações, conquistada no ciclo 2023/2024, quando superou os Estados Unidos. A estimativa gira em torno de 3,96 milhões de toneladas na colheita que está começando, um incremento de 7,1%, em uma área plantada 10,2% superior (2,143 milhões de hectares). Já para os embarques externos, que têm como principal destino a Ásia, espera-se crescimento de 13%, para 2,743 milhões de toneladas.
Os indicadores positivos são apurados em meio a um cenário em que os preços da fibra, pressionados por uma oferta global elevada e incertezas econômicas, estão historicamente abaixo da média. “A demanda global está em processo de recuperação, mas ainda marcada por cautela. Os compradores têm priorizado aquisições para consumo imediato, sem grandes programações futuras”, explica Dawid Wajs, presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea).
O Brasil tem condições de ampliar a área de cultivo e, consequentemente, suas exportações: a previsão é embarcar 2,97 milhões de toneladas na safra 2025/2026. Um dos desafios, entretanto, é a guerra tarifária, que pode impactar a demanda e o estoque no mundo, pressionando os preços. “O algodão é muito influenciado pelo consumo”, afirma Fernando Berardo, diretor de commodities Brasil e Latam da Barchart, especializada em dados e cotações de commodities.
O setor, que destina 75% da sua produção para o exterior, tem adotado a estratégia de buscar novos mercados, para diversificar sua pauta de exportação. A China, por exemplo, perdeu o posto de nosso maior comprador: as aquisições do gigante asiático caíram de 1,297 milhão de toneladas na safra 2023/2024, o equivalente a 50% do total dos embarques brasileiros, para 483 mil toneladas na temporada atual, representando 18% do total. Vietnã (19%), Paquistão (18%), Bangladesh (13%) e Turquia (12%) figuram entre os grandes consumidores. Além disso, aumentaram as vendas para a Índia, de 13 mil para 70 mil toneladas.
Entre os fatores que impulsionaram as exportações está a qualidade do produto. O aperfeiçoamento genético dos cultivares, que elevou o nível de qualidade da fibra, fez a diferença em um mercado bastante competitivo, opina Francisco Soares, presidente da Tropical Melhoramento & Genética (TMG). “O melhoramento tem como objetivo não apenas aumentar a resistência a pragas, mas também buscar o equilíbrio entre produtividade e qualidade”, explica.
Especializada em soluções genéticas para algodão, soja e milho, a TMG tem instalações de pesquisas no Centro-Oeste e no Nordeste, regiões que se destacam na cotonicultura nacional. O orçamento anual para pesquisa e desenvolvimento de novos cultivares gira em torno de R$ 250 milhões. De acordo com Soares, pelo menos três cultivares são lançados por ano e licenciados para grandes produtores, que multiplicam a semente e vendem ao produtor final.
Produzido com o emprego das melhores técnicas socioambientais, o algodão brasileiro é sustentável, tem as certificações necessárias para suprir o mercado internacional e pode ser rastreado ao longo da sua cadeia produtiva, desde a lavoura até a indústria, ressalta Gustavo Viganó Piccoli, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Segundo ele, o produtor tem investido em tecnologia, em maquinário e na qualificação da mão de obra do campo.
A estratégia para buscar novos mercados para o algodão brasileiro contempla, ainda, o esforço de conscientização do mercado para estimular o aumento do consumo de fibras naturais, que perderam espaço na indústria do vestuário. O grande apelo, ressalta o presidente da Abrapa, reside no fato de que as fibras sintéticas, de origem fóssil e largamente utilizadas no setor, contaminam o meio ambiente com microplásticos e são prejudiciais à saúde.
Além de garantir o fornecimento de fibra para o mercado, a cultura do algodão cria a oportunidade para exploração comercial de outro produto: o caroço de algodão, cujo processo de industrialização permite a extração de óleo, que pode ser utilizado na produção de biocombustível, e a torta de algodão (farelo), utilizada na alimentação animal, especialmente para ruminantes, devido ao alto teor de proteína. Embora incipiente, a exploração econômica do caroço de algodão tem potencial de incrementar a renda do produtor rural, sobretudo nos momentos de baixa dos preços.
A maior parte do algodão brasileiro é cultivada em segunda safra, que se estende de janeiro a agosto — na primeira, os produtores semeiam outras culturas, como soja, arroz, feijão e milho. Mato Grosso lidera a produção nacional, com 70%, seguido do Cerrado baiano, com participação de 15% a 20%. O restante está espalhado por nove Estados. O plantio na atual safra ocorreu sem adversidades climáticas, exceto a estiagem, na Bahia, e chuvas incomuns no fim de junho no Mato Grosso.









