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Boletim de Inteligência de Mercado Abrapa
10 de Janeiro de 2025

Destaque do Ano 1 - Em 2024, as receitas com a exportação brasileira de algodão superaram US$ 5 bilhões (2,77 milhões tons), recorde absoluto. O melhor ano havia sido 2022 com US$ 3,7 bi. Destaque do Ano 2 - Os números confirmaram o Brasil na liderança mundial de exportação de algodão pela primeira vez na história. Algodão em NY - O contrato Mar/25 fechou nesta quinta 09/jan cotado a 68,50 U$c/lp (+1,2% vs. 02/jan). O contrato Dez/25 fechou em 69,90 U$c/lp (-1,7% vs. 02/jan). Basis Ásia - O Basis médio do algodão brasileiro posto Leste da Ásia é de 800 pts para embarque Fev/Mar-25 (Middling 1-1/8" (31-3-36), fonte Cotlook 09/jan/25). Análise 2025 - Abaixo, alguns fatores que podem impactar o mercado neste ano: Baixistas 1 - No dia 20/jan, Donald Trump inicia seu segundo mandato como presidente dos EUA. Espera-se aumento de incertezas e volatilidade no mercado internacional. Baixistas 2 - A China é o principal exportador de produtos têxteis e tem nos EUA seu maior mercado. Tarifas e barreiras ao comércio de confecções irão impactar negativamente nossas exportações para lá. Baixistas 3 - Desafios macroeconômicos permanecem: altas taxas de juros, pressões inflacionárias e dólar forte. Baixistas 4 - Competição: o algodão continua perdendo participação de mercado para fibras sintéticas como o poliéster. Altistas 1 - Embora as expectativas em relação à demanda continuem ruins no geral, alguns países podem aumentar as importações, principalmente se os níveis de preços continuarem competitivos. Altistas 2 - Os patamares atuais de preços (dez/25) podem levar produtores de algodão dos EUA a buscarem culturas alternativas, reduzindo a área de algodão. Altistas 3 - O complexo mais amplo de commodities, incluindo grãos e sementes oleaginosas, pode fornecer suporte indireto aos preços do algodão, caso elas se fortaleçam. Altistas 4 - Eventos extremos climáticos têm se intensificado e causado sucessivos danos a lavouras ao redor do mundo, impactando na oferta. China 1 - Até 8/jan, 95% da produção de algodão estimada em Xinjiang pela BCO foram beneficiadas (6,15 milhões tons). Esse volume é 19% maior que o registrado no mesmo período em 2024. China 2 - A boa notícia é que pelo menos uma parte da Cota de Tarifa Reduzida (TRQ) de 894 mil toneladas já está sendo distribuída a fiações na China. China 3 - O sistema de importação de algodão da China utiliza duas cotas. A Cota de Tarifa Reduzida (TRQ) segue regras da OMC e permite a importação de até 894 mil toneladas anuais com tarifa reduzida de 1%. China 4 - O outro tipo de cota é a Cota de Tarifa Variável (Sliding scale), emitida quando a demanda excede a TRQ, com tarifas variáveis mais altas que a TRQ, mas inferiores às tarifas fora da cota. China 5 - Em 2024, a China não emitiu cotas de importação com tarifa variável (Sliding scale) além da TRQ padrão de 894 mil toneladas. Mas, em 2023, o país realizou uma cota adicional de 750 mil toneladas. EUA - A colheita foi finalizada nos EUA e o foco dos produtores agora é o plantio. A chuva contribuiu para a melhoria da umidade do solo no Texas, principal estado produtor. Austrália - O plantio da safra 2025 na Austrália foi concluído. As primeiras plantações progridem bem, pois a precipitação das últimas semanas tem assegurado a umidade do solo necessária. Cotton Brazil 1 - Além do título de maior exportador mundial de algodão, o Brasil fechou 2024 com uma programação intensa do Cotton Brazil. Foram 34 eventos, 9 missões internacionais, 2 missões no Brasil e 5 ‘Cotton Tours’. Cotton Brazil 2 - Ao todo, o programa de promoção do algodão brasileiro passou por 20 países, englobando um público de 4,5 mil empresários e investidores. Em fev/25, a agenda retorna com a Missão Índia, Bangladesh e Paquistão. Exportações 1 - As exportações brasileiras de algodão somaram 352,8 mil tons em dez/24. Foi o segundo melhor mês de dezembro na história das exportações brasileiras de pluma (em dez/20, o volume foi de 370,5 mil tons). Exportações 2 - De janeiro a dezembro de 2024, as exportações de algodão somaram 2,77 milhões tons, alta de 71,4% com relação a 2023. Exportações 3 - Em receita, as exportações somaram US$ 5,15 bilhões, valor recorde no ano civil e alta de 67,7% em comparação com 2023. Beneficiamento 2023/24 - Até ontem (09/01), foram beneficiados nos estados da BA (98%), GO (100%), MA (95%), MG (99%), MS (100%), MT (92,73%), PI (98%), PR (100%) e SP (100%). Total Brasil: 94,17%. Plantio 2024/25 - Até ontem (09/01), foram semeados nos estados da BA (66,3%), GO (76,7%), MA (83%), MG (87%), MS (79%), MT (14%), PI (77,2%), PR (90%) e SP (73%). Total Brasil: 29,42%. Preços - Consulte tabela abaixo ⬇ Quadro de cotações para 09_01 Este boletim é produzido pelo Cotton Brazil, iniciativa que representa a cadeia produtiva do algodão brasileiro em escala global. Contato: cottonbrazil@cottonbrazil.com

Relatório de Qualidade do Algodão Brasileiro – safra 2023/24 (dezembro)
07 de Janeiro de 2025

Ainda leva um tempinho para concluir a etapa de análise por HVI do algodão brasileiro da safra 2023/2024, que hoje está em 95%. Mas o que já se percebe é que a qualidade tem se mantido estável, com incremento num índice muito importante, que é o relativo às fibras curtas, uma das principais demandas da indústria de fiação global para a fibra nacional. Alguns pontos de melhoria já podem ficar no radar para a safra que vem, como os índices de pegajosidade e de contaminação, que dependem em grande parte da decisão do produtor por variedade e estratégia de manejo. Acompanhe em detalhes a performance do algodão brasileiro na safra 2023/2024, no Relatório de Qualidade da Abrapa de janeiro. Clique no link e confira! https://abrapa.com.br/wp-content/uploads/2025/01/JOB-012025-Relatorio-de-Estatistica-da-Qualidade-do-Algodao-Brasileiro-.pdf 

Brasil ultrapassa EUA e já é maior exportador de algodão do mundo
07 de Janeiro de 2025

Por Marcello Antunes da Silva, repórter da Agência Brasil - O desempenho da safra 2023/2024 de algodão, com a colheita de mais de 3,7 milhões de toneladas, elevou o Brasil ao posto de maior produtor do mundo. O país também se tornou, oficialmente, e pela primeira vez na história, o maior exportador de algodão do mundo, superando os Estados Unidos. O anúncio foi feito neste fim de semana em Comandatuba, na Bahia, durante a 75ª reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão e seu Derivados, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, na conferência Anea Cotton Dinner, promovida pela Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea). A meta era prevista para ser alcançada somente em 2030. A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) comemorou o resultado da safra atual, com 60% da produção totalmente comercializada. “A liderança no fornecimento mundial da pluma é um marco histórico, mas não é uma meta em si, e não era prevista para tão cedo. Antes disso, trabalhamos continuadamente para aperfeiçoar nossos processos, incrementando cada dia mais a nossa qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade, e, consequentemente, a eficiência”, ressaltou o presidente da Abrapa, Alexandre Schenkel. A meta era prevista para ser alcançada somente em 2030. Guinada - O presidente da Anea, Miguel Faus, lembrou que há cerca de duas décadas o Brasil era o segundo maior importador mundial. “Essa guinada se deve a muito trabalho e investimento na reconfiguração total da atividade, com pesquisa, desenvolvimento científico, profissionalismo e união. É um marco que nos enche de orgulho como produtores e como cidadãos”, afirmou. A Abrapa atribui o bom desempenho dos produtores à interligação entre produtores e a indústria têxtil brasileira. Apesar de sofrer forte concorrência externa, o consumo de fios e de algodão deve subir de 750 mil toneladas para 1 milhão de toneladas por ano. A própria associação criou uma rede chamada Sou de Algodão, onde produtores de roupas, universidades de moda, pesquisadores e produtores de algodão caminham juntos para desenvolver qualidade aos produtos finais. Cerca de 84% do algodão produzido no Brasil detém certificações socioambientais. As exportações brasileiras se recuperaram também pela maior demanda de países como Paquistão e Bangladesh, que no ciclo anterior compraram menos devido a dificuldades financeiras para abrir cartas de créditos. Essa retomada colaborou para que as expectativas fossem superadas. "A gente achava que iria exportar inicialmente 2,4 milhões, 2,45 milhões de toneladas." Entre os principais mercados do algodão brasileiro estão China, Vietnã, Bangladesh, Turquia e Paquistão. Penas de aves - Na última semana, o governo brasileiro recebeu o anúncio, pela Região Administrativa Especial (RAE) de Hong Kong, China, da aprovação sanitária para a exportação de penas de aves do Brasil. O produto tem diversos usos industriais, incluindo a fabricação de almofadas, travesseiros, roupas de cama e estofados, além de ser utilizado como matéria-prima em produtos de isolamento térmico e acústico. A abertura amplia o mercado para produtos avícolas do Brasil, refletindo a confiança no sistema de controle sanitário brasileiro. A relação comercial com a RAE de Hong Kong foi responsável pela importação de mais de US$ 1,15 bilhão em produtos do agronegócio brasileiro no ano passado. Com este anúncio, o agronegócio brasileiro alcança sua 72ª abertura de mercado neste ano, totalizando 150 aberturas desde o início de 2023. Novo consulado na China - Na última quinta-feira (27), o Brasil abriu seu terceiro consulado-geral na parte continental da China, em Chengdu, capital da Província de Sichuan, no sudoeste do país. Com seu distrito consular abrangendo Sichuan, Chongqing, Guizhou, Yunnan e Shaanxi, o consulado-geral é estabelecido depois dos em Shanghai e Guangzhou. Cézar Amaral tornou-se o primeiro cônsul-geral do Brasil em Chengdu. Como este ano marca o 50º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre a China e o Brasil, a abertura do consulado-geral é uma sinalização do aprofundamento da cooperação entre os dois países, segundo Marcos Galvão, embaixador brasileiro na China.

Mais eficiente e produtivo, algodão brasileiro pode bater nesta safra a meta de 2030
07 de Janeiro de 2025

Originário de regiões quentes e secas, o algodão é daquelas culturas que se adaptaram muito bem ao clima brasileiro. As 3,6 milhões de toneladas da pluma colhidas na safra 2023/2024 em 1,9 milhão de hectares, comprovam o sucesso da planta, cultivada principalmente no Centro-Oeste do pais. Alem do clima favorável, os investimentos em tecnologia e a melhora dos tratos culturais são elementos que compõem essa receita de alta produtividade. "Nos últimos 25 anos, a retomada aconteceu graças ao desenvolvimento de variedades melhor adaptadas ao clima brasileiro. O aumento do uso de insumos biológicos também contribui para esse crescimento", avalia o diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Marcio Portocarrero. O resultado é que o setor deve atingir já na próxima safra a meta estabelecida para 2030 e produzir 4 milhões de toneladas da pluma. A area plantada também deve ser 6% maior na temporada 2024/2025 e alcançar 2,1 milhões de hectares. A boa rentabilidade da cultura e um dos fatores que devem influenciar nesse aumento de área. "Está melhor que o milho, fazendo com que muitos produtores acabem optando por plantar algodão ao invés do grão", explica o analista de inteligência de mercado do Itaú BBA, Francisco Carlos Queiroz. Atualmente, o Brasil é o maior exportador do mundo, deixando para trás players tradicionais como os Estados Unidos. A quebra da safra norte-americana por conta das oscilações climáticas acabaram por favorecer o Brasil, que tomou a dianteira também na produção. "A recuperação da safra americana veio tarde e ficou aquém do esperado. No Texas, principal estado produtor, muitas áreas foram abandonadas", explica Queiroz. Para os próximos anos, mais do que ampliar a produtividade, o setor tem outros desafios: ampliar a demanda e equilibrar os custos. "Nos últimos anos sofremos com o aumento da concorrência da fibra sintética e por isso ampliar a demanda pela fibra natural se faz necessário para continuarmos a crescer na produção e nas exportações", avalia Portocarrero. Um aspecto favorável ao algodão esta na mudança de percepção dos consumidores, especialmente no mercado europeu, cada vez mais preocupados com o impacto do consumo e optado por produtos que priorizem a produção sustentável e a economia circular. "Nesse quesito estamos prontos, pois atendemos a todos os critérios do mercado, produzindo com sustentabilidade, com respeito às normas e ainda temos um produto natural que pode ser reaproveitado de diversas maneiras, com uma longa vida útil" detalha o executivo. Oferta e demanda alinhadas A estratégia para ampliar a demanda pelo algodão brasileiro passa pela abertura de novos mercados. Segundo Portocarrero, a demanda global por algodão está estável há anos entre 24 e 26 milhões de toneladas. Na safra 2023/2024, o Brasil exportou 2,8 milhões de toneladas. Com isso, os preços ao longo do ano oscilaram com tendència de queda, inclusive no mercado doméstico. "Além da relação entre oferta e demanda, a cotação do petróleo também influencia os preços da fibra natural, uma vez que as fibras sintéticas são o principal concorrente", explica Queiroz. Portocarrero explica que o setor tem condições de chegar a 5 milhões de toneladas produzidas até 2030, mas que esse estimulo à produção só será feito caso a demanda cresça proporcionalmente. "Não faz sentido ampliarmos a produção se o mercado consumidor não acompanhar esse ritmo", pondera. Entre os mercados consumidores do algodão brasileiro estão a China, Vietnä, Egito e Bangladesh. Somente os chineses compram cerca de 49% do produto brasileiro. Para a safra 2024/2025, a estimativa do Itaú BBA é que o pais compre 2 milhões de toneladas, volume 33% inferior as 3 milhões de toneladas da temporada 2023/2024. "Isso se deve principalmente à retomada da produção chinesa", analisa Queiroz. A İndia também faz parte da lista, com relevância cada vez maior, já que o volume adquirido do Brasil saltou de 8 mil toneladas para 70 mil toneladas em apenas um ano. "É um indicativo de que eles reconhecem a qualidade do nosso produto", avalia Portocarrero. Outro aspecto que pode turbinar a demanda pelo algodão brasileiro já no próximo ano é a tendência de que Donald Trump, presidente eleito nos Estados Unidos, faça um governo ainda mais protecionista em seu segundo mandato, impondo tarifas à importação. "Com isso, pode ser que eles fechem o mercado para os têxteis indianos, que, em retaliação, podem ir buscar plumas de algodão em outros mercados, principalmente no Brasil", pondera Portocarrero. Mercado doméstico O executivo explica que há perspectiva de aumento da demanda também no mercado doméstico, já que o consumo brasileiro de algodão tem se mantido estável na casa das 700 mil toneladas. "Podemos chegar a 1 milhão de toneladas já em 2030", calcula. Para tanto, ele considera que ações de engajamento e conscientização sobre a cadeia do algodão e os beneficios da fibra para a saúde e para o meio ambiente são fundamentais, "Também precisamos de uma politica de estimulo aos produtos nacionais e de um cenário onde haja aumento do poder aquisitivo e melhora da taxa de juros". Como exemplo, ele cita o projeto Sou de Algodão, iniciativa da Abrapa junto à indústria têxtil, designers e estilistas, chegando até os consumidores, levando informação sobre o setor. Atualmente mais de 1,7 mil marcas participam da iniciativa, com o compromisso de utilizar pelo menos 70% de algodão na composição de seus produtos. "Temos um mercado de 220 milhões de consumidores, nosso desafio é educá-los sobre as vantagens do consumo da fibra natural para a saúde e para o meio ambiente", afirma. Além do aumento da produção no campo, ele considera fundamental a modernização do parque textil brasileiro, ja bastante defasado. A perspectiva é de que as indústrias tenham mais crédito disponível para investir em renovação de equipamentos, já que em setembro o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assinou o decreto que institui o programa de depreciação acelerada. O programa define as 23 atividades económicas - incluindo a indústria tèxtil que serão beneficiadas com créditos financeiros para a modernização do parque industrial. A primeira etapa prevê a liberação de R$ 3,4 bilhões para aquisição de máquinas e equipamentos até 2025, Controle do custo Os investimentos no uso de defensivos biológicos nos últimos anos estão contribuindo para a melhora da produtividade e competitividade do algodão. A titulo de comparação, enquanto a produtividade média por hectare nas fazendas brasileiras e de 1.900 quilos, nos Estados Unidos, segundo maior produtor, essa média é de 950 quilos. "Nosso desafio é seguir produzindo algodão de alta qualidade e manter a produtividade alta, reduzindo os custos, para que a conta feche", pondera Portocarrero. Na opinião do executivo, para que isso aconteça, será fundamental um programa de atração de investimentos para a produção de defensivos e moléculas no mercado brasileiro, além da desburocratização do processo de aprovação de moléculas mais modernas e eficazes para o uso no país. "Estamos em média oito anos atrás de outros países na oferta de moléculas". Ele considera a lei de defensivos, aprovada em 2023, fundamental para destravar a fila e contribuir para que o Brasil de o próximo passo rumo ao aumento da eficiência agricola. "Ter a produção local também contribuiria para a diminuição dos custos". A aprovação da Reforma Tributária pela Câmara, no último dia 17 de dezembro, é outro elemento que deve contribuir para melhorar a competitividade do setor, na visão do executivo. "É o ponto de reconhecimento do congresso sobre a importância do agrawegócio para o Brasil e demonstra a preocupação em contribuir para que sejamos cada vez mais eficientes e competitivos".

Especialistas veem 2025 como 'ano da diplomacia agrícola'
07 de Janeiro de 2025

Renata Ferguson, grande produtora de soja e milho em Rio Verde (GO), acompanha de perto as novidades sobre as negociações do comércio exterior brasileiro.Para ela, os acordos internacionais definem o futuro de seu negócio, já que grande parte do que ela colhe segue para exportação. Em contraste, o jovem Natã Caetano, que cultiva hortaliças em São Miguel Arcanjo (SP) e abastece a Ceasa da capital paulista, afirma não dar muita atenção às discussões sobre o comércio global. “Eu não exporto, então isso não me afeta”, diz, para em seguida questionar: “Será que eu deveria?” Essa diferença de abordagens expõe de maneira didática o crescente debate sobre a influência da diplomacia agrícola e das regras do comércio internacional sobre as atividades de produtores rurais brasileiros de diferentes escalas. Para especialistas ouvidos pela Globo Rural, essas discussões serão uma das grandes tendências de 2025, quando devem sair da porteira e se alastrar por outras esferas da sociedade. Renata oferece treinamento a seus funcionários para que eles intensifiquem a adoção de práticas sustentáveis e, em outra frente, negocia com muitas empresas internacionais, das quais colhe ideias que mais tarde vão enriquecer a gestão da lavoura. A quase quilômetros dali, Natã não adota as mesmas práticas, mas precisa cumprir uma série de exigências para selecionar e armazenar o chuchu que colhe, além de manter o QR code de rastreabilidade para entregar a produção às centrais de abastecimento. Embora as características do trabalho dos dois agricultores sejam muito distintas entre si, ambos seguem rígidas regras de comercialização e, assim, cumprem tarefas que integram o conceito de diplomacia agrícola. Segundo Carol Pavese, professora de relações internacionais da Faculdade Belas Artes, o termo abrange tanto regras do comércio internacional e de abertura de mercados quanto diretrizes de segurança alimentar e manejo sustentável, independentemente do tamanho da área de cultivo. “A diplomacia agrícola é uma estratégia de relações internacionais para promover o agronegócio de um país no cenário global, consolidando mercados, negociando barreiras comerciais e fortalecendo a presença de seus produtos em regiões estratégicas. Ela envolve ações coordenadas entre governos, setor privado e organizações internacionais para aumentar a competitividade e a sustentabilidade do setor”, detalha a professora. Novo espírito do tempo Especialistas concordam que as regras do comércio internacional vão pautar ainda mais as reuniões de cooperativas, associações e entidades públicas do setor. Como parte desse novo espírito do tempo, desde 2023 o governo federal tem ampliado o número de adidos agrícolas, que atuam como representantes do Brasil em países parceiros; hoje, há 40 em ação. E, no campo, os produtores correm para ajustar suas práticas para, com isso, não perderem espaço (nem dinheiro). Há consenso de que o Brasil terá um papel diplomático de destaque, sendo o líder do Mercosul na defesa da agropecuária. Ao mesmo tempo, grandes exportadores e empresas de comercialização de commodities investem em tecnologias de rastreabilidade, automação e certificações. Já nas propriedades, a maioria dos pequenos e médios produtores dá prioridade a questões como crédito e recuperação financeira após um ano de muitos problemas climáticos. "Não temos tempo para pensar nisso. Precisamos plantar, colher e vender" — Natã Caetano, que cultiva hortaliças em São Miguel Arcanjo (SP) Quem exporta precisa lidar com um cenário de crescente protecionismo. Desde 1962, com a criação da Política Agrícola Comum da França, os países têm adotado medidas restritivas para proteger seus mercados. O professor Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, observa que o Brasil tem respondido a essas barreiras com a criação de um arcabouço legal para retaliações formais, buscando defender interesses nacionais e manter sua posição estratégica no mercado global. Jank destaca que a resposta brasileira vai além da defesa comercial. "Estamos consolidando padrões que promovem a competitividade, enquanto enfrentamos desafios de barreiras não tarifárias" — Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global Segundo Carol Pavese, a padronização de normas internacionais de comércio também gera pressão sobre pequenos e médios produtores. “Essas exigências podem excluir quem não tem estrutura para se adequar, favorecendo grandes integrantes do agronegócio”, afirma ela. O contraste entre a família Ferguson e o jovem Natã ilustra bem essa realidade. Esforços de grandes e pequenos Enquanto grandes exportadores personalizam sua produção para atender a novos mercados, pequenos agricultores tentam atender às demandas locais de sustentabilidade. Cadeias como as de café e algodão lideram a corrida pela internacionalização. No primeiro semestre de 2024, o Brasil superou os Estados Unidos e tornou-se o maior exportador de algodão do mundo, em um dos resultados mais evidentes de programas como o CottonBrazil, liderado pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e que tem apoio do Ministério da Agricultura. No caso do café, pequenos produtores têm se destacado com práticas sustentáveis. Na Chapada Diamantina, no interior da Bahia, por exemplo, Isabela Azevedo e Douglas Fagundes cuidam de uma agrofloresta em que produzem variedades de café arábica a 1,2 mil metros de altitude. Eles já exportam lotes exclusivos, mas sua produção ainda não alcançou escala que permita voos mais altos no mercado externo – a colheita na propriedade é manual e o trato diário requer muita atenção a detalhes. Só que o casal já cumpre diretrizes internacionais, tem recebido prêmios por seus esforços em sustentabilidade, usa apenas insumos biológicos e, além disso, busca financiamento para mecanizar parte da colheita. O casal já recebeu na propriedade comitivas internacionais interessadas nos microlotes exclusivos e, recentemente, criou a marca de cafés especiais Boa Vista, logo depois da conquista do selo de Melhor Café do Brasil, em 2018, concedido pela Associação Brasileira das Indústrias de Café (Abic). Eles estão de olho nas novidades da pesquisa global e mantêm “talhões-laboratório” para testes de manejo. Na Fazenda Boa Terra, que Isabela herdou de seu pai, Paulo Azevedo, eles trabalham para aplicar as boas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) enquanto miram outros mercados. O conceito de diplomacia agrícola comporta ainda outras iniciativas do casal. A premiação, por exemplo, até hoje contribui para agregar valor ao grão no mercado doméstico e para projetar a marca do casal em outros países. Isso tem atraído mais visitantes, o que levou Isabela e Douglas a decidir fazer um dinheiro extra com o turismo rural. Aos visitantes, que recebem com hora marcada, eles apresentam informações históricas de tradição e cultura do vilarejo rural de Ibicoara (BA), onde fica a propriedade. Em novembro, o casal recebeu um grupo de australianos que começará a negociar a compra do produto por meio da cooperativa local, um modelo de negócio que ajuda a incluir pequenos produtores na rota da exportação. Efeitos sobre o Brasil Fim das negociações para o acordo UE-Mercosul lei antidesmatamento europeia, “efeito Trump” e guerras no Oriente Médio foram alguns dos acontecimentos que marcaram 2024 e que tiveram (e ainda terão) influência direta sobre o agro brasileiro. O debate sobre a correlação entre geopolítica e comércio agrícola está em alta, o que pode beneficiar o Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Só o livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, por exemplo, pode gerar US$ 11 bilhões para a economia brasileira até 2040, segundo cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). É verdade que os efeitos dessa novidade ainda vão levar um tempo para aparecer. No dia 6 de dezembro, os dois blocos anunciaram, em Montevidéu, no Uruguai, a conclusão das tratativas para a assinatura do acordo. O anúncio, histórico, levou 25 anos para ocorrer. No entanto, para entrar em vigor efetivamente, o tratado ainda depende de aprovações dos parlamentos locais. Em paralelo, o Brasil tem ampliado sua presença em mercados asiáticos para além de seu maior parceiro comercial na atualidade, a China. O avanço ocorre também no Oriente Médio, que, apesar das tensões decorrentes do conflitos na região, tem grande potencial e longo histórico de relações com o agro brasileiro.

Ministério da Agricultura reconhece 11 programas de certificação de boas práticas para concessão de crédito
07 de Janeiro de 2025

O Ministério da Agricultura reconheceu cinco programas de certificação de boas práticas agrícolas ao longo de 2024, depois que foi criada a regra para a concessão de desconto no custeio rural de médios e grandes produtores. Antes, já havia reconhecido seis iniciativas em 2022 e 2023. Um dos programas aptos é o Soja Legal, desenvolvido pela Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja-MT). A iniciativa estimula e capacita os proprietários rurais a adotarem ações de conformidade em eixos, como a qualidade de vida no campo e no trabalho, a gestão consciente da água, o gerenciamento de resíduos, as melhores práticas agrícolas, adequação ao Código Florestal, a viabilidade econômica da produção e a qualidade do produto. Atualmente, 1.250 produtores fazem parte do Soja Legal, dos quais 700 já têm o selo de conformidade. Segundo Luiz Bier, vice-presidente da Aprosoja-MT, 85 agricultores já foram cadastrados e poderão obter os descontos nos financiamentos assim que o sistema estiver operando. Os demais participantes deverão ser inseridos em breve. Bier acredita que poucos contratos serão firmados agora, mas diz que a medida é importante por reconhecer as adicionalidades ambientais e sociais dos produtores. “A nossa expectativa é que o produtor que realmente faz o dever de casa e que cumpre toda legislação ambiental seja reconhecido. Esperamos que não haja muita contratação nos primeiros meses, porque a safra já está rodando. O produtor vai começar a tomar crédito novamente a partir de a P&A Ltda, o Certifica Minas Café, da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, o Selo Mip Experience, da PROMIP Manejo Integrado de Pragas Ltda, e o Boas Práticas Agrícolas IBS, do Instituto BioSistêmico (IBS), já haviam sido reconhecidos pelo Ministério da Agricultura. Os programas avalizados no segundo semestre de 2024 agregaram mais de 900 produtores rurais ao rol de futuros beneficiários dos descontos. São eles: Programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e Programa Algodão Brasileiro Responsável para Unidades de Beneficiamento (ABR-UBA), ambos da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa); o Certifica Minas, da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais; o Programa Selo Ambiental do Arroz Rastreado RS, do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga); e o Protocolo de Sustentabilidade Cooxupé Gerações, da Cooperativa Regional de Cafeicultores de Guaxupé Ltda. Procurado, o Ministério da Agricultura não respondeu.

Boletim de Inteligência de Mercado Abrapa
20 de Dezembro de 2024

Destaque da Semana - Cotações caíram durante a semana, mesmo com bom relatório de exportação dos EUA. Fatores baixistas listados abaixo pesaram mais. Algodão em NY - O contrato Mar/25 fechou nesta quinta (19/dez) cotado a 67,91,09 U$c/lp (-3,1% vs. 12/dez). O contrato Dez/25 fechou em 69,12 U$c/lp (-3,0% vs. 12/dez). Basis Ásia - O Basis médio do algodão brasileiro posto Leste da Ásia é 800 pts para embarque Jan/Fev-25 (Middling 1-1/8" (31-3-36), fonte Cotlook 19/dez/24). Baixistas 1 - A expectativa de acirramento da guerra comercial entre EUA e China após a posse de Trump preocupa, pois pode prejudicar o crescimento global. Baixistas 2 - A grande depreciação do real frente ao dólar também é um fator baixista. Baixistas 3 - Cotações de soja em Chicago estão se aproximando da mínima de quatro anos e esse viés baixista tem contaminado o algodão. Altistas 1 - No último relatório do USDA, destaque para o aumento mensal tanto na demanda mundial quanto nas exportações. Altistas 2 - Nestes níveis de preço, é natural que produtores americanos busquem alternativas. Para remunerar o produtor, o algodão precisa estar acima de 80cents. China 1 - A China importou cerca de 110 mil tons de algodão em nov/24. Volume similar a out/24, mas 64% inferior a nov/23. China 2 - Nos quatro primeiros meses do ano comercial 2024/25, o total é de 483 mil tons - menos da metade do total importado no mesmo período de 2023/24. China 3 - Com a produtividade maior na safra 2024/25 de algodão, o Ministério da Agricultura chinês ampliou para 5,9 milhões tons a estimativa de produção. China 4 - Desde 17/dez, turistas de 54 países (incluindo o Brasil) podem ficar até 10 dias (240h) na China sem necessidade de visto. A nova política chinesa vale para 21 aeroportos internacionais distribuídos em 24 províncias. EUA 1 - A colheita da safra 2024/25 nos EUA praticamente encerrada, os produtores acompanham as precipitações de inverno para viabilizar a próxima safra. EUA 2 - O USDA já classificou 85% da safra americana. Restam 276 algodoeiras ativas das 466 do país. Paquistão - A Abrapa e a Anea planejam uma missão ao Paquistão em fev/25. O país tem estado ativo nas compras, já que os estoques disponíveis da safra local não ultrapassam 1 milhão de fardos. Vietnã 1 - Em nov/24, o Vietnã importou 10% a mais de algodão que em nov/23, atingindo 132 mil tons. É o maior volume mensal desde mai/24. O Brasil respondeu por 44%. Vietnã 2 - No ano comercial 2024/25, as importações somaram 512.532 tons, das quais 28% foram do Brasil. Bangladesh - Com alta de 4% em relação a out/24, a importação de algodão em nov/24 em Bangladesh foi de 116 mil tons. No ano civil (jan/nov), o volume acumulado é de pouco mais de 1,5 milhão tons – dos quais 18% saíram do Brasil. Índia - Na Índia, a importação de algodão em out/24 foi de 62 mil tons, pouco maior que em set/24, mas 5 vezes (5x) superior a out/23. O Brasil forneceu 10.026 tons – volume 111,5% acima do registrado em out/23. Indonésia – A importação de algodão na Indonésia em out/24 somou 36 mil tons. A Austrália forneceu 40% desse total e o Brasil, 39%. De agosto a outubro, os indonésios importaram *118 mil tons *. Austrália - Com o fim do beneficiamento e da classificação do algodão australiano da safra 2024, o foco fica nas exportações, que seguem até abr/25. Exportações - As exportações brasileiras de algodão somaram 157,7 mil tons até a 2ª semana de dezembro. A média diária de embarque é 10,1% menor que a registrada no mesmo mês de 2023. Beneficiamento 2023/24 - Até ontem (19/12), foram beneficiados nos estados da BA (98%), GO (99,25%), MA (93%), MG (98%), MS (100%), MT (88,78%), PI (97,33%), PR (100%) e SP (100%). Total Brasil: 91,19% Plantio 2024/25 - Até ontem (19/12), foram semeados nos estados da BA (51,3%), GO (70,4%), MA (14%), MG (60%), MS (79%), PI (49,27%), PR (90%) e SP (65%). Total Brasil: 14,29% Preços - Consulte tabela abaixo ⬇ Quadro de cotações para 19_12 Este boletim é produzido pelo Cotton Brazil, iniciativa que representa a cadeia produtiva do algodão brasileiro em escala global. Contato: cottonbrazil@cottonbrazil.com

Brasil conquista em 2024 o posto de maior exportador mundial de algodão
20 de Dezembro de 2024

Com a missão de posicionar o algodão brasileiro no mercado internacional, o programa Cotton Brazil, da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), conclui o ano de 2024 de forma histórica. Ao fim do ano comercial 2023/24, o País se tornou o maior exportador mundial de pluma – antecipando uma meta que estava prevista para 2030. A união de forças e a atuação estratégia ajudam a explicar o resultado. “O caminho da sustentabilidade na moda e no consumo passa pelo algodão, uma fibra natural, reciclável e com menor pegada de carbono. Disseminar essa ideia e mostrar como o Brasil pode contribuir para esse cenário mundial tem nos ajudado a ter grandes conquistas”, analisa o presidente da Abrapa, Alexandre Schenkel. A estratégia tem dado bons frutos. No ano comercial 2023/24, que foi de agosto de 2023 a julho de 2024, o Brasil embarcou 2,7 milhões de toneladas de algodão – 85% a mais que no ano comercial anterior (2022/23). Com isso, o País forneceu 28% de toda a pluma comercializada no período, ampliando em dez pontos percentuais (10 pp) a nossa presença no mercado mundial. Na análise do ano civil de 2024, os resultados também são positivos. “Se a média dos últimos três meses se mantiver em dezembro, o Brasil pode fechar o ano de 2024 batendo a marca dos US$ 5 bilhões exportados. De qualquer forma, já superamos o recorde anterior, de 2022, quando o País registrou US$ 3,7 bilhões de receita com o comércio exterior”, observa o diretor de Relações Internacionais, Marcelo Duarte. Duarte coordena de Singapura o programa Cotton Brazil, que ao longo de 2024 realizou 9 missões internacionais em diferentes países importadores. Ao todo, o Cotton Brazil impactou cerca de 4.500 stakeholders neste ano, com a realização e participação em 34 eventos e relacionamento junto a 20 países. A união do setor produtivo do algodão é outro ponto que contribui para os bons resultados do programa. “O Cotton Brazil, propriamente dito, é a união da Abrapa com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e a Associação Nacional de Exportadores de Algodão (Anea). Mas muitos outros players do mercado estão conosco nas nossas iniciativas”, afirma Duarte. Seja em eventos setoriais estratégicos internacionais, como o congresso anual da International Cotton Association (ICA), ou em ações nacionais como a Cotton School, a Abrapa mobilizou marcas como a Bolsa Brasileira de Mercadorias (BBM), a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e as associações estaduais de cotonicultores. “Outro apoio fundamental veio do Governo Brasileiro, via Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e Ministério das Relações Exteriores (MRE)”, destacou Schenkel. Do Mapa, o Cotton Brazil conta com a rede de adidos agrícolas, e do MRE, com diplomatas e embaixadores – principalmente nos países prioritários do programa (Bangladesh, Coreia do Sul, China, Egito, Índia, Indonésia, Paquistão, Turquia e Vietnã).