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Workshop promovido pela Abrapa debate manejo integrado de pragas e doenças do algodão

Evento reuniu associações estaduais, pesquisadores, entidades públicas e privadas para discutir manejo integrado, avanço dos biológicos e estratégias sustentáveis de controle fitossanitário do algodão

18 de Maio de 2026

O avanço de estratégias integradas no combate às principais pragas e doenças do algodão foi tema do 3º Workshop Integrado de Pragas e Doenças do Algodão, promovido pela Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) através do programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR) nesta quarta-feira, 14/05, em Brasília.


O encontro, que contou com apoio da Bayer, reuniu associações estaduais, representantes da indústria, pesquisadores nacionais e internacionais para discutir os principais desafios fitossanitários enfrentados pela cotonicultura brasileira e as alternativas para tornar a produção mais eficiente e sustentável. A programação foi dividida em três temas prioritários: 1) Manejo de Bicudo e Lagartas; 2) Manejo de Doenças, como ramulária e mancha-alvo; e 3) Uso de Biológicos;


Abrapa destaca necessidade de avanços regulatórios para reforçar o MIPD


O evento reforçou a importância do manejo durante a entressafra e da adoção de estratégias regionais coordenadas para evitar perdas de produtividade e conter o aumento dos custos.


Na abertura do workshop, o vice-presidente da Abrapa, Paulo Aguiar, afirmou que a agricultura tropical exige soluções cada vez mais integradas para equilibrar produtividade e sustentabilidade. Segundo ele, os produtos biológicos vêm ganhando espaço como alternativa complementar aos defensivos químicos, especialmente diante da pressão por sistemas produtivos mais sustentáveis e eficientes.


De acordo com Aguiar: “O desafio da agricultura tropical exige cada vez mais inovação e integração de tecnologias. Os biológicos ajudam a reduzir o uso de defensivos químicos, mas também precisamos avançar no desenvolvimento e na aprovação de novas moléculas que já são utilizadas nos Estados Unidos e na Europa. O objetivo deste workshop é justamente reunir diferentes elos da cadeia para avançarmos em um modelo de produção mais sustentável dentro do programa ABR”.


Durante a sua fala, o diretor executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero, antecipou que o Ministério da Agricultura deverá lançar ainda neste mês o Sistema Unificado de Informação, Petição e Avaliação Eletrônica (SISPA) do novo Marco Regulatório dos Defensivos Agrícolas. A iniciativa construída com investimentos da associação, vai unificar os sistemas de liberação de pareceres do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para agilizar o registro de novas molécula para insumos agrícolas.


Portocarrero também citou a importância do manejo integrado de pragas para a redução de custos de produção. “O grande desafio hoje para os produtores de algodão é aumentar a produtividade e reduzir custos, o que se torna um desafio, diante do atual cenário mundial.  Para termos mais eficiência nas operações precisamos trabalhar com a integração dos biológicos e com tudo o que temos disponível em termos de tecnologia e manejo para aumentarmos a margem.


O diretor executivo da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Gustavo Prado, falou sobre o alinhamento dos objetivos entre as entidades em relação ao MIPD. “Existe um alinhamento muito forte entre a Abrapa e a Abapa na busca por soluções que unam sustentabilidade, produtividade e competitividade para a cotonicultura brasileira. O mais importante é ver todos os elos da cadeia na mesma direção, compartilhando conhecimento, experiências de campo e boas práticas que fortalecem os resultados do algodão brasileiro”, explicou.


Representando a Bayer, o gerente de marketing de algodão, Eduardo Correa, afirmou que iniciativas como o workshop ajudam a aproximar a indústria das necessidades do produtor rural e fortalecem o desenvolvimento de soluções alinhadas à realidade do campo brasileiro.


Manejo do bicudo e lagartas


O combate ao bicudo e às lagartas ocupou a maior parte da programação. Especialistas defenderam que o manejo integrado depende de planejamento contínuo, monitoramento e integração entre diferentes ferramentas de controle.


A abertura do painel sobre bicudo trouxe um panorama da praga nas principais regiões produtoras do país, com participações do pesquisador do Instituto Mato Grossense de Algodão,  Dr. Edson Júnior, do gerente fitossanitário da Abapa, Dr. Giorge Gomes, e do coordenador de fitossanidade do grupo SLC Agrícola, Alexandre Pisoni. Na sequência, a destruição de soqueira apareceu como um dos grandes desafios atuais da cotonicultura. Em palestra específica sobre o tema, o Dr. Edson Júnior reforçou que a eliminação adequada dos restos culturais segue sendo um gargalo para muitos produtores, apesar de seu papel central no manejo do bicudo.


Durante seu painel, o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Dr. Jorge Torres, destacou que o manejo começa ainda na entressafra. Torres reforçou que o vazio sanitário continua sendo essencial, mas precisa estar associado a outras estratégias para garantir eficiência no controle da praga.


Outro destaque foi a apresentação da Rede Bicudo Brasil, conduzida pelo pesquisador da Fundação Bahia, Me. Allef Silva. Segundo o pesquisador, os ensaios sobre o bicudo são realizados simultaneamente em diferentes regiões produtoras do país, permitindo comparar resultados em distintas condições climáticas e produtivas. Os dados obtidos serviram de base técnica para orientar as recomendações de manejo mais eficientes para cada realidade regional.


Na discussão sobre manejo de lagartas, o pesquisador em entemologia da Multcrop, Dr. Antonio Carlos, apresentou estratégias voltadas ao controle das principais espécies que afetam o algodoeiro. Já o professor da Universidade Federal de Pelotas, Dr. Daniel Bernardi, abordou o comparativo de eficácia entre inseticidas genéricos e moléculas mais efetivas no manejo de lagartas. Complementando o debate, o sócio diretor da Holagri, Guido Sanchez, relembrou a trajetória de controle da lagarta-rosada, que, para ele, é um case que demonstra como alinhamento regional é importante para mitigar pragas em várias culturas, incluindo do algodoeiro.


O fortalecimento do refúgio e os desafios relacionados à adoção da prática foi abordado pelo gerente de marketing da Bayer Algodão, Eduardo Correa. O gerente citou as inovações da Bayer em relação aos defensivos e mostrou os dados de como cada um deles tem funcionado de acordo com a praga e a região que foram aplicados no país.


Para contribuir com o debate e a troca de experiências entre cientistas e produtores, ocorreu entre as apresentações duas rodadas de discussão mediadas pelo gerente de sustentabilidade da Abrapa, Fábio Carneiro. A primeira delas contou com o produtor de algodão do estado da Bahia, Jarbas Bergamaschi, o Dr. Edson Junior, junto com o Dr. Jorge Torres e foi dedicada a discutir estratégias regionais e o fortalecimento do manejo integrado. A segunda rodada reuniu o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz, da Universidade de São Paulo, o pós-doutor em Biologia Molecular Aplicada à Entomologia, Celso Omoto, a Coordenadora de Desenvolvimento e Extensão do Departamento de Agricultura e Pesca do estado de Queensland, na Austrália, a PhD em mortalidade lagarta Spodoptera litura Sharna Holman, o agrônomo da Fazenda Sete Povos (BA), Ricardo Atarass, e Alexandre Pisoni.


Doenças desafiam eficiência dos fungicidas


O manejo de doenças ganhou espaço com discussões voltadas principalmente ao avanço da ramulária e da mancha-alvo nas lavouras brasileiras. Pesquisadores alertaram para o aumento da resistência dos patógenos e para a necessidade de revisão das estratégias atualmente utilizadas no campo.


Representando a Fundação Chapadão, o pesquisador Dr. Deivid Sacon afirmou que as ferramentas disponíveis atualmente já não conseguem controlar as doenças de forma plenamente efetiva. Segundo ele, a redução do intervalo entre aplicações e a combinação de fungicidas têm apresentado resultados mais consistentes nas lavouras de Mato Grosso do Sul.


O tema continuou em pauta na apresentação do Dr. Fabiano Perina (Embrapa Algodão), sobre o manejo assertivo de Ramulariopsis pseudoglycines e Corynespora cassiicola. Os especialistas defenderam que o avanço das doenças exige um manejo mais técnico e integrado, associando monitoramento, posicionamento correto de produtos e estratégias preventivas para preservar a eficiência das moléculas disponíveis.


Biológicos avançam, mas exigem estrutura e tecnologia


O uso de biológicos apareceu como estratégia promissora para a cotonicultura, embora especialistas tenham ressaltado que a adoção dessas ferramentas ainda exige mudanças importantes dentro das propriedades rurais.


Em palestra sobre desafios e casos de sucesso no uso de biológicos, o produtor e engenheiro agrônomo Cézar Busato relatou experiências do oeste baiano e afirmou que o sucesso dessas tecnologias depende de estruturas e processos que não fazem parte da rotina tradicional das fazendas. Segundo ele, o avanço dos biológicos permitiu reduzir significativamente o uso de químicos e contribuiu diretamente para solucionar problemas relacionados ao mofo branco nas áreas produtivas.


A importância dos biológicos no equilíbrio do sistema produtivo é uma das principais vantagens na visão dos especialistas. Quando corretamente posicionados, esses produtos ajudam a reduzir o desenvolvimento de fungos e vírus, reforçando o manejo integrado e ampliando a sustentabilidade das lavouras.


Fortalecimento de alianças internacionais


Participantes da Austrália, Paraguai e Argentina destacaram a evolução das estratégias de manejo adotadas pelo Brasil e a importância da integração entre produtores, pesquisadores e indústria para enfrentar os desafios fitossanitários.


Daniela Vitti, bióloga e mestre em gestão ambiental do INTA (Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina), ressaltou a importância de eventos técnicos desenvolvimento da agricultura sustentável na América Latina.


“Eventos como esse são mais que positivos para promover as alianças e cooperações entre países. Temos pontos em comum com a produção do algodão, então o compartilhamento dos conhecimentos nos ajuda a enfrentar os desafios, mesmo que tenhamos muitas diferenças em termos ambientais para cada região algodoeira, há muitas de coisas que podemos colaborar para o manejo do cultivo, para a produção e para a cadeia”, comentou Vitti.


Construção coletiva de soluções


No encerramento, o gerente de sustentabilidade da Abrapa, Fábio Carneiro, citou o MIPD como um dos temas prioritários do Programa ABR por ser uma forma de buscar o equilíbrio do sistema produtivo através do monitoramento, aliado ao uso racional de defensivos e da biotecnologia, promovendo uma cotonicultura mais responsável.


“O grande avanço do MIPD está na integração entre pesquisa, tecnologia e experiência prática no campo. O algodão brasileiro evolui quando toda a cadeia trabalha de forma coordenada para construir soluções sustentáveis e eficientes”, afirmou.

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