Marcelo Duarte Monteiro é diretor de relações internacionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão – Abrapa e CEO da Asia-Brazil Agro Alliance, formado em administração pela UFMT, com mestrado pela FGV.
AgriBrasilis – Como a Ásia se tornou o principal mercado para o algodão brasileiro?
Marcelo Duarte – A consolidação da Ásia como destino do algodão brasileiro é resultado de um movimento estruturado ao longo de mais de uma década. Houve, de um lado, o crescimento acelerado da indústria têxtil asiática, especialmente em países como China, Vietnã, Bangladesh e Indonésia, e, de outro, um esforço coordenado do Brasil em se posicionar como fornecedor confiável.
A Abrapa, em parceria com a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão – ANEA e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos – ApexBrasil, estruturou o programa Cotton Brazil, que intensificou a promoção comercial do algodão brasileiro no exterior, com ações focadas em buscar e fidelizar compradores. Isso permitiu não apenas ampliar presença, mas construir relacionamento direto com fiações e tradings, garantindo previsibilidade e confiança no fornecimento.
A instalação de um escritório avançado do Cotton Brazil em Singapura foi um marco para estarmos próximos dos grandes compradores, consolidando relações com os maiores consumidores do mundo.
AgriBrasilis – O Brasil ainda depende excessivamente da China ou já consolidou outros mercados?
Marcelo Duarte – A China continua um mercado importante, mas o Brasil avançou significativamente na diversificação de destinos. Temos uma presença muito mais equilibrada em países do Sudeste Asiático, Sul da Ásia e até no Oriente Médio. Vietnã, Índia e Bangladesh, por exemplo, têm ganhado relevância crescente.
Essa diversificação reduz riscos comerciais e geopolíticos, além de permitir maior estabilidade nas exportações. Portanto, embora a China ainda seja relevante, o algodão brasileiro não é excessivamente dependente de um único mercado.
AgriBrasilis – Como o produto brasileiro se compara ao dos EUA e da Austrália em qualidade e preço?
Marcelo Duarte – O algodão brasileiro é altamente competitivo em ambos os aspectos. Em qualidade, temos um produto consistente, com bom comprimento de fibra, resistência e uniformidade, resultado de investimento em tecnologia, manejo e beneficiamento. Nossos laboratórios de análise de HVI (High Volume Instrument), garantem que o nosso cliente do outro lado do mundo receba o algodão padronizado de acordo com referências internacionais de qualidade.
Em termos de preço, o Brasil costuma ser competitivo devido à eficiência produtiva em larga escala. Em relação aos Estados Unidos, competimos diretamente em qualidade e escala, enquanto a Austrália também apresenta um produto de excelência, porém com menor volume disponível. O diferencial brasileiro está justamente na combinação entre qualidade, confiabilidade e disponibilidade ao longo do ano.
AgriBrasilis – A logística brasileira está preparada para sustentar o crescimento do algodão no mercado asiático?
Marcelo Duarte – A logística ainda é um dos principais desafios do Brasil, mas houve avanços importantes nos últimos anos. A ampliação de investimentos em terminais portuários, como é o caso de Salvador, têm contribuído para maior eficiência.
As regiões produtoras, principalmente no Mato Grosso e no oeste da Bahia, operam com planejamento junto a tradings e portos. Além disso, a Abrapa implementou o ABR-LOG, que estende as práticas de certificação e gestão aos terminais retroportuários.
Ainda existem gargalos, especialmente no transporte rodoviário. Para sustentar o crescimento das exportações, será fundamental continuar investindo em infraestrutura multimodal e reduzir custos logísticos, que ainda impactam a competitividade.
AgriBrasilis – Qual é a importância da sustentabilidade, da rastreabilidade e da certificação na valorização para o setor?
Marcelo Duarte – São pilares do posicionamento do algodão brasileiro no mercado internacional. Certificações como o Algodão Brasileiro Responsável (ABR) e o Better Cotton Initiative (BCI) atestam nosso produto de acordo com critérios rigorosos de sustentabilidade ambiental, social e econômica.
A rastreabilidade atende a uma demanda crescente de marcas e consumidores por transparência na cadeia produtiva. Isso não apenas agrega valor ao produto, mas também abre portas em mercados mais exigentes, especialmente na Europa e em segmentos premium da indústria têxtil.
As regulamentações de circularidade e conformidade socioambiental se tornaram compromissos das principais marcas e varejistas com os consumidores e, por isso, a certificação deixou de ser apenas um diferencial e se torna requisito para acesso a mercados de alto valor.
AgriBrasilis – Quais devem ser os impactos da próxima safra nas exportações?
Marcelo Duarte – A próxima safra tende a manter o Brasil em posição de destaque no mercado internacional de algodão, com produção que passa os 3 milhões de toneladas e
potencial de crescimento nas exportações em relação ao ano anterior. Esse desempenho ainda dependerá de fatores como condições climáticas, demanda internacional e dinâmica de preços.
Caso se confirme uma boa produtividade, o Brasil pode ampliar ainda mais sua participação no comércio global, especialmente se continuar avançando na diversificação de mercados e na agregação de valor por meio da sustentabilidade e da qualidade do produto.
