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Apetite chinês pelo algodão brasileiro dá sinais de recuperação

Com estoques cheios, as compras de algodão brasileiro pela China, no ano passado, caíram 52%, porém, nos dois primeiros meses de 2026, o Brasil já exportou 207 mil toneladas – 40% do volume total exportado em 2025

30 de Abril de 2026

Por Alessandra Milanez, Para o Valor


Estoques cheios fizeram a China frear a importação de algodão no ano passado, levando a uma queda de 52% em relação a 2024 nas vendas brasileiras da matéria-prima para o país asiático. O recuo interrompeu uma sequência de aumento das exportações de algodão do Brasil para a China que se mantinha desde 2022 e jogou os números para patamares observados pela última vez em 2019.


Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), órgão vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a China gastou US$ 828 milhões importando a commodity brasileira em 2025, ante US$ 1,73 bilhão no ano anterior. Em volume, o país comprou 512 mil toneladas de algodão do Brasil em 2025, cerca de 17% do total exportado da matéria-prima. No ano anterior, foram 925 mil toneladas, correspondente a 33% do total das exportações brasileiras do produto.


Segundo especialistas, no entanto, o movimento do ano passado foi atípico, e as exportações já mostram recuperação neste ano. “Em 2024, a China fez uma grande recomposição de estoque e, em 2025, não precisou importar tanto”, explica Dawid Wajs, presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea).


Já neste ano, o apetite chinês dá sinais de recuperação. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, o Brasil exportou 207 mil toneladas de algodão para a China, o que equivale a 40% do volume total exportado no ano passado, mostrando que a tendência é de recuperação e que a queda de 2025 não teve nenhuma relação direta com o Brasil ou com a qualidade da pluma produzida aqui. “Nosso relacionamento com a China é longo e sólido”, diz Wajs.


Essa aproximação é fruto de um trabalho contínuo de produtores e exportadores brasileiros de algodão. Uma das principais iniciativas nesse sentido foi criada em 2020: o Cotton Brazil, programa conjunto da Anea, da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), que busca promover o algodão brasileiro no mercado global e intensificar o relacionamento com os principais mercados importadores da matéria-prima.


A iniciativa ajudou a consolidar, no mercado internacional, a imagem do algodão brasileiro como um produto de qualidade e sustentável, uma exigência de boa parte das empresas europeias que compram tecidos e peças de vestuário fabricadas em outros países, especialmente na China. Para conquistar essa credibilidade, os produtores brasileiros fizeram o dever de casa: a Abrapa criou a certificação Algodão Brasileiro Responsável (ABR), que verifica, por meio de auditorias anuais, uma lista de quase 200 itens ligados a critérios ambientais, sociais e econômicos. A ABR ainda opera em parceria com a Better Cotton Initiative (BCI), certificação internacional aceita por grandes marcas globais. “Graças a essas certificações, não temos restrição em nenhum mercado internacional”, afirma Gustavo Piccoli, presidente da Abrapa.


Com preço competitivo e qualidade comparável à de outros grandes exportadores, como Estados Unidos e Austrália, o principal desafio para que o algodão brasileiro conquiste mais espaço no mercado internacional não é a concorrência desses países, mas as fibras sintéticas, mais baratas do que o algodão.


Alexandre Pedro Schenkel, produtor rural, engenheiro agrônomo e presidente do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA), explica que as fibras sintéticas, além de causarem danos ao ambiente, também representam um problema de saúde pública, uma vez que a lavagem dessas peças libera microplásticos que podem ser inalados ou ingeridos e causar prejuízos à saúde humana. “Para conseguir competir com as fibras sintéticas, ainda que as peças de algodão fiquem 20% ou 30% mais caras do que as das fibras sintéticas, é preciso manter os preços das fibras naturais em patamares competitivos, o que é um grande desafio, porque os custos de produção, como fertilizantes e combustível, estão em alta”, afirma Schenkel.


Nesse sentido, a Abrapa defende a criação de iniciativas que conscientizem a população e ensinem a diferenciar as peças de fibras naturais das sintéticas. Uma das medidas em avaliação é a criação de uma espécie de selo para as roupas de algodão, inspirada na rotulagem de alimentos, que alerta o consumidor em relação a produtos que tenham alto teor de açúcar ou gordura. Batizada de “De olho na etiqueta”, a campanha tem como objetivo deixar mais claro para a população o que ela está consumindo. “Atualmente é difícil achar na etiqueta onde está a composição da roupa, mostrando o percentual de algodão e de outras fibras. A gente quer que isso fique mais claro, mais visível e que a população tenha mais senso crítico na hora de escolher a sua roupa”, diz Piccoli.

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