O Brasil é o maior exportador de algodão do mundo e o terceiro maior produtor da pluma. Agora, um dos focos do setor é a melhoria contínua da qualidade da fibra que é matéria-prima para a indústria têxtil nacional e internacional.
Com esse objetivo, a Associação Goiana dos Produtores de Algodão (Agopa) e a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) realizaram, na última sexta-feira, 27 de março, em Goiânia, um workshop dedicado às melhores práticas, do manejo à comercialização, com resultados comprovados em qualidade. O encontro reuniu especialistas representantes de diferentes elos da cadeia produtiva, entre produtores, comerciantes e industriais em oito painéis temáticos.
Excelência técnica e visão de mercado
O painel “Classificação, contaminantes e padronização da fibra”, apresentado pela diretora de relações institucionais da Abrapa, Silmara Ferraresi, pelo pesquisador da Embrapa João Paulo Saraiva e pelo gerente do laboratório de qualidade da Agopa, Rhudson Assolari, detalhou desafios e avanços na classificação do algodão brasileiro, além dos impactos dos contaminantes na produção industrial e na reputação da fibra. A padronização e a formação de lotes na comercialização também estiveram em pauta.
A dimensão estratégica da qualidade foi destacada por Ferraresi, ao relacionar o rigor técnico ao posicionamento do produto no mercado internacional. A diretora também enfatizou o papel da comunicação e da imagem do setor: “A qualidade é o nosso melhor argumento de venda. Quando mostramos ao mundo que o algodão brasileiro tem rastreabilidade e um padrão técnico rigoroso, estamos consolidando a marca do Brasil como um fornecedor confiável”, afirmou
Na abordagem técnica, Rhudson Assolari conduziu módulos sobre legislação e prática de classificação, ressaltando o compromisso com a precisão: “Nosso papel aqui é garantir que o resultado que sai do laboratório seja o espelho fiel do que o produtor colheu, assegurando que cada fardo goiano esteja pronto para atender às exigências das fiações mais modernas”, explicou.
Qualidade e reputação
Os desafios da indústria têxtil e a importância da gestão da qualidade na geração de valor da fibra brasileira foram discutidos em painel com o gerente do programa Cotton Brazil, Fernando Rati, o vice-presidente da Fiasul, Franco Manfroi, e o gestor de estratégia e operação da divisão de exportação de produtos agrícolas da Timbro, João Paulo Lima.
Rati destacou o crescente interesse das fiações asiáticas pelo algodão brasileiro, atribuindo esse movimento ao avanço da qualidade da fibra nacional. No entanto, apontou entraves relacionados à contaminação, especialmente por pegajosidade e presença de plástico. Segundo ele, “A resolução de desafios técnicos pode aumentar consideravelmente as exportações do algodão brasileiro para os países asiáticos. A nossa qualidade é muito alta, o nosso maior problema é o nível de contaminação”.
Sob a ótica da indústria, Manfroi reforçou a preocupação com contaminantes: “O mercado têxtil brasileiro é bastante exigente e as indústrias de fiação evitam ao máximo produzir com algodão contaminado por plásticos para evitar problemas na cadeia”. A pegajosidade também foi apontada como fator de desperdício e de imperfeições no fio durante o processo industrial.
Integração da cadeia
Além dos painéis, o workshop promoveu uma mesa-redonda sobre o futuro do algodão brasileiro, com foco na integração entre produção, indústria e mercado global. Participaram do debate o presidente da Agopa, Haroldo Cunha, o diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, o presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), Dawid Wajs, e o produtor de algodão e membro do conselho da Abrapa, Luiz Carlos Bergamaschi.
Para Wajs, iniciativas como o workshop sinalizam ao mercado o compromisso do setor com a excelência. “Eventos como esse são essenciais para levar conhecimento para os produtores e dar um sinal para o mercado que qualidade é uma preocupação da cadeia do algodão brasileiro. Eu diria que a principal ação deve ser em relação aos contaminantes como plástico e fragmentos de semente (sead coat). Esse cuidado é necessário para manter o nível de reputação do algodão brasileiro”.
Bergamaschi reforçou a responsabilidade dos produtores na manutenção da qualidade: “Um pouco de capricho na lavoura resolve muito. Para a indústria, a mensagem é que podem confiar no algodão brasileiro”
Já Haroldo Cunha destacou o momento estratégico para o setor e a necessidade de atuação conjunta. “Qualidade é transparência, seriedade e consciência. Um produtor pode desagiar a origem como um todo, impactando a percepção dos compradores do algodão brasileiro. É muito importante que o público diverso que está aqui entenda que a responsabilidade da qualidade é de todos. Um trabalho conjunto. A qualidade é feita todo dia, com a noção de coletividade”.
O encontro foi encerrado com a avaliação de que a integração entre as instituições e os diferentes elos da cadeia é fundamental para assegurar que a pluma brasileira mantenha o padrão de excelência exigido pelo mercado internacional.
