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Pressão por rastreabilidade e impacto climático leva setor têxtil a reforçar governança e gestão de riscos

Com certificação B, novos comitês internos e adoção das normas IFRS S1 e S2, Lunelli, Lupo e Renner sinalizam maturidade crescente na gestão de impactos e transparência da indústria têxtil

18 de Dezembro de 2025

Valor Econômico

Por Naiara Bertão, Prática ESG — São Paulo

Com a pressão crescente por responsabilidade socioambiental sobre o setor da moda, grandes companhias brasileiras vêm ampliando esforços em governança, mensuração e transparência. As iniciativas vão desde a busca por certificações independentes e a revisão de processos internos até a adoção de padrões internacionais de divulgação financeira relacionados à sustentabilidade. Lunelli, Lupo e Lojas Renner S.A. estão entre os exemplos mais recentes desse movimento, que indica uma tentativa de fortalecer a gestão de riscos, impactos e compromissos ESG (sigla em inglês para questões ambientais, sociais e de governança corporativa).

A Lojas Renner foi a primeira varejista do mundo e uma das duas companhias abertas no Brasil a adiantar a publicação do Relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, primeira divulgação em conformidade com as normas internacionais IFRS S1 e S2. As normas, equivalentes no Brasil aos pronunciamentos CBPS 01 e 02, exigem divulgação estruturada de riscos, métricas e impactos climáticos com auditoria externa. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) passará a exigir das empresas listadas na bolsa de valores brasileira (B3) o documento a partir do exercício social de 2026, com reporte em 2027. Até então, a publicação é voluntária e, além da Renner, apenas a mineradora Vale divulgou seu relatório este ano, e a B3, a bolsa de valores do país, anunciou recentemente que vai publicar no ano que vem com dados de 2025.

Para a Renner, a antecipação foi encarada como uma oportunidade de avaliar suas práticas e onde ainda pode avançar. “É claro que ser o primeiro significa não ter referência sobre como fazer. Mas vimos que poderia ser mais positivo do que negativo adiantar o relatório”, conta Regina Frederico Durante, vice-presidente de Gente, Sustentabilidade e Relações Institucionais da Lojas Renner S.A..

Ela conta que desde 2011 a empresa publica anualmente o relatório de sustentabilidade seguindo o padrão do GRI e já incorporou, ao longo do tempo, outros frameworks de divulgação de informações ESG, como do SASB e da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD). Contudo, as exigências do IFRS S1 e S2 vão além do habitual e exigem um esforço duplo, de mapeamento e análise de risco, sob o ponto de vista de sustentabilidade e financeira.

Eduardo Ferlauto, diretor de Sustentabilidade da Renner, explica que o diagnóstico e as escutas de stakeholders levaram quase um ano. “Já tínhamos mapeado, desde 2022, o impacto das ondas de calor e inundações pela metodologia do TCFD, mas faltava materialidade financeira”, conta.

Por exigir dados e análises que extrapolam o Financeiro e a Sustentabilidade, foi necessária uma conexão com outras áreas da companhia, como Controladoria, Riscos, Governança Corporativa, Planejamento Financeiro e Relações com Investidores (RI). “O IFRS é um novo paradigma para o valuation das empresas. É importante ter claro como [a gestão de riscos e oportunidades ligadas a clima e sustentabilidade] se conecta à estratégia de negócio”, diz Ferlauto. A metodologia seguiu o COSO Enterprise Risk Management (ERM) 2017, um padrão de gestão de riscos corporativos que foca na integração da gestão de riscos com a estratégia e o desempenho para criar valor à empresa.

O executivo comenta que tanto a decisão de se antecipar em relação ao mercado quanto o documento final passou pela validação de comitês internos de Auditoria, Gestão de Riscos e Sustentabilidade e também pelo Conselho de Administração. A empresa também contratou a EY pra fazer a auditoria externa. “A governança é importante para dar segurança e para permitir que seja feita uma integração entre a estratégia de sustentabilidade e a estratégia da companhia”, comenta Ferlauto.

Os resultados mostram impacto financeiro líquido positivo de R$ 100 milhões em 2024, mesmo diante de eventos climáticos extremos. Em dez anos, a projeção da Renner é de geração de caixa de R$ 191 milhões a R$ 217 milhões. Os ganhos vêm principalmente do consumo de energia renovável de baixo impacto e do aumento das vendas de produtos mais sustentáveis.

A análise de riscos climáticos identificou ameaças como inundações, ondas de calor, incêndios florestais e secas. Ao mesmo tempo, mapeou oportunidades ligadas à demanda crescente por produtos responsáveis, ao uso de energia renovável e a novas tecnologias. O plano de transição para matérias-primas de menor impacto inclui projeções de receitas e custos associados.

Por outro lado, entre as oportunidades encontradas estão o uso de energia renovável e a venda de produtos mais sustentáveis. Juntos, essas duas frentes têm o potencial de impacto positivo entre R$ 424 milhões e R$ 488 milhões no fluxo de caixa operacional, sem descontar os impostos. A Renner já opera com 100% de energia renovável - desde 2021, contratada via mercado livre de energia - solar, eólica e pequenas centrais hidrelétricas (PCH) - o que gerou, em 2024, uma economia de 24% em relação à energia convencional.

Para ampliar seu portfólio de produtos sustentáveis, porém, a empresa precisou fortalecer a governança da agenda ESG. Algumas metas colocadas lá atrás já foram concluídas entre 2018 e 2021 e novos compromissos foram firmados até 2030, distribuídos em três pilares: soluções climáticas, circulares e regenerativas; conexões que amplificam; e relações humanas e diversas. Regina, VP de Sustentabilidade, reforça que engajar toda a cadeia de fornecimento segue sendo um dos maiores desafios do setor.

“A tecnologia e a inovação desempenham um papel estratégico na gestão da sustentabilidade em nossa empresa”, conta a executiva. A incorporação da inteligência artificial, por exemplo, tem sido “decisiva”, segundo ela, para fortalecer a governança. “Automatizamos e digitalizamos processos, aumentamos a precisão na gestão de riscos e otimizamos recursos, trazendo mais transparência.” ​

Além de contar com o alto nível de automação no centro de distribuição e lojas, a companhia investiu em tecnologias para fazer a gestão de perto da cadeia de sua cadeia de fornecedores. ​A empresa desenvolveu um modelo preditivo que alcança 63% de assertividade na identificação de não conformidades críticas, elevando a eficiência e a maturidade ESG da cadeia produtiva. “Além disso, estamos implementando uma ferramenta de rastreabilidade para obter transparência de todo o nosso processo produtivo", completa.

Ao longo dos últimos cinco anos, a Renner tem investido em melhorar seus processos de monitoramento e desenvolvimento da cadeia de fornecimento sob a ótica das melhores práticas de sustentabilidade, de acordo com a executiva. Entre os resultados citados estão o rastreamento de 53,5 milhões de peças de vestuário, que representam 28,2% do volume de compras global. Ao aumentar em 50% a eficiência no processo de monitoramento​ da cadeia produtiva, também conseguiu acelerar a verificação dos fornecimento sob a ótica das melhores práticas de sustentabilidade, de acordo com a executiva. Entre os resultados citados estão o rastreamento de 53,5 milhões de peças de vestuário, que representam 28,2% do volume de compras global. Ao aumentar em 50% a eficiência no processo de monitoramento​ da cadeia produtiva, também conseguiu acelerar a verificação dos fornecedores frente aos requisitos ESG.

O engajamento dos fornecedores também aumentou na qualificação online oferecida pela companhia e, ao menos 70% deles usam sistemas automáticos para disponibilizar informações. “Quase metade dos fornecedores - 48,3% - já disponibilizam inventários GHG Escopo 1 e 2 diretamente na nossa plataforma digital​”, conta.

A varejista incentiva os fornecedores a inovarem, seja em pesquisa de fios menos poluentes como alternativas aos de fontes fósseis ou em novas ideias de economia circular para lidar com resíduos industriais e no pós-consumo. O algodão, uma das principais matérias-primas da indústria têxtil, apesar de ser natural, sofre com o aquecimento do planeta, o que tem obrigado as empresas a buscar alternativas em fibras naturais. Além disso, é uma cultura que demanda muita água - em muitos casos, irrigação intensiva - e depende de fertilizantes sintéticos.

Segundo os dados do relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade apresentado pela empresa, em 2024, a Renner consumiu 19,5 mil toneladas de algodão (dos quais 97% certificados), 10,4 mil toneladas de poliéster (2,6% certificados) e 6 mil toneladas de viscose (94% certificados).

O custo das matérias-primas é, no longo prazo, o maior efeito negativo no fluxo de caixa, representando entre R$ 148 milhões e R$ 172 milhões adicionais em 10 anos. Inundações e ondas de calor podem trazer prejuízos entre R$ 88 milhões a R$ 99 milhões no mesmo período, calcula a empresa.

A aposta da indústria tem sido em programas de algodão orgânico e certificado segundo boas práticas socioambientais - como é o caso da Better Cotton Initiative (BCI). “O Brasil hoje é um grande celeiro do algodão, ao lado de Índia e China, mas podemos nos deparar com um cenário de escassez. Por isso, precisamos pensar estratégias para blindar o negócio, tanto olhando pela ótica dos riscos, quanto das oportunidades”, comenta Ferlauto. Ele cita projetos com algodão agroflorestal e ecológico. A companhia também faz parte de um programa da _Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) de rastreabilidade do algodão, o Sou de Algodão_, conjunto com outras varejistas e marcas de roupas.

Hoje, 70% das peças vendidas nas lojas Renner são produzidas no Brasil. Nos últimos anos, o grupo seguiu um movimento chamado de nearshoring, que traz a produção mais próxima do mercado consumidor por uma questão de custo e maior controle.

Selo B como um diferencial competitivo

A Lunelli, gestora das marcas de produtos têxteis Lunender, Lunelli Malhas e Tecidos, Lez a Lez, Alakazoo, Hangar 33, Fico e Vila Flor e cujo faturamento bateu R$ 1,6 bilhão em 2024, conquistou em 2025 a Certificação Sistema B, reconhecido globalmente por avaliar não apenas desempenho ambiental e social, mas também governança e transparência. O selo — administrado pelo B Lab — analisa cinco pilares: Governança, Trabalhadores, Comunidade, Meio Ambiente e Clientes. A Lunelli é o segundo grupo têxtil brasileiro com mais de miil colaboradores a obter o reconhecimento.

“Passamos a fazer parte de um seleto grupo, que integra um movimento global de transformação, composto por negócios que colocam as pessoas e o planeta no centro das decisões, e que atuam de forma colaborativa para gerar impacto positivo e duradouro”, comenta Viviane Cecilia Lunelli, presidente da Lunelli. A companhia também participa do Pacto Global da ONU no Brasil.

Segundo a executiva, essa conquista só foi possível pelo engajamento dos funcionários, fornecedores e outros parceiros. “Assim como nós, eles acreditam na força da construção coletiva e na evolução contínua do nosso setor”, acrescenta. O grupo tem quase 5 mil funcionários, 46 lojas (13 lojas próprias) e, em 2024, produziu aproximadamente 26,5 milhões de peças.

Os princípios do movimento B foram traduzidos internamente em um modelo de gestão, com destaque para a sustentabilidade econômica, geração de emprego e renda e produção com menor impacto ambiental. A companhia compra algodão com certificação Better Cotton e, desde 2018, usa em suas peças “viscose responsável”, tecido que utiliza a fibra ecológica Lenzing EcoVero, extraída da madeira e produzida com menos água.

Em seu relatório de sustentabilidade mais recente, consta uma série de ações para reduzir desperdícios, como, por exemplo, a transformação do resíduo têxtil em novas fibras para a fiação e reincorporação no processo produtivo. Foram implementadas tecnologias de lavagem que reduzem entre 20 e 30% no consumo de água - no jeans, por exemplo, a etapa de lavagem usa hoje apenas um copo de 250 ml de água, redução de 99% em relação ao processo convencional. O restante da água é reutilizada após tratamento.

O grupo optou ainda pelo uso de corantes reativos bi-funcionais de baixo impacto ambiental e a etapa de amaciamento por nebulização, aumentando a durabilidade das peças. “Também aplicamos laser para fazer os efeitos de “desgaste” do jeans, substituindo o processo de lavanderia com água e produzindo uma peça com técnicas mais limpas e livres de produtos químicos”, traz o relatório. Em 2024, conseguiu reduzir em 19% o envio de resíduos a aterros sanitários.

Na pauta social, mais de R$ 1,4 milhão foi investido, em 2024, em projetos sociais relacionados ao cuidado da pessoa idosa, criança e adolescente, incentivo ao esporte e cultura, entre doações, patrocínios e incentivos fiscais. Tudo isso contou para a obtenção do Selo de Empresa B.

Reforço na governança para avançar mais rápido

Há dois anos e meio na Lupo, após atuar como fornecedor da empresa por mais de 25 anos, Vinicius Morbeck, diretor Industrial e coordenador de Sustentabilidade do grupo, tem liderado a estruturação de uma governança mais ampla voltada a práticas ESG, com a criação de sistemas formais, comitês e rotinas permanentes de acompanhamento.

Ainda que o grupo já mantinha iniciativas socioambientais próprias e parcerias anteriores à sua chegada, agora os processos estão mais formalizados. Hoje, a companhia conta com um comitê de ESG, envolvendo representantes de fábrica, jurídico e Recursos Humanos, e grupos expandidos com representantes de outras áreas. A empresa montou “minicomitês temáticos”, de químicos a comunidades, responsáveis por levantar riscos, impactos e necessidades de investimento. As atualizações são apresentadas periodicamente à diretoria e à presidência.

“Tenho delegado pessoas para conversar com cada grupo. São reuniões focadas no tema, consolidando tudo e acompanhando as ações”, explica o executivo. As atualizações são levadas à diretoria e ao presidente, especialmente quando há necessidade de dinheiro. A cada três meses, o comitê administrativo revisa os avanços, dificuldades e define próximos passos.

As metas de sustentabilidade foram reorganizadas com ajuda da consultoria Ricca, com foco em dupla materialidade. “Foi um grande divisor de águas para a gente”, diz Morbeck. O trabalho considerou três empresas de referência no setor têxtil, avaliou impactos, riscos e questões financeiras e resultou na divisão do plano em 11 grupos temáticos, com frentes ambientais, sociais e de governança.

No pilar ambiental, por exemplo, a Lupo trabalha com redução de resíduos, água e emissões de CO₂, com objetivos robustos para 2030. No social, o foco é inclusão e diversidade em todas as unidades — no Brasil e no Paraguai — respeitando as particularidades locais. Em governança, a prioridade é integrar riscos ao negócio, incluindo financeiros e socioambientais, criando planos de mitigação. “Cinquenta por cento do nosso plano está no ambiental; 30% a 35% no social e 15% em governança de riscos integrados ao negócio”, detalha.

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