Em meio ao avanço das discussões sobre sustentabilidade, redução do uso de químicos e modernização regulatória do setor agrícola brasileiro, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) promoveu, em parceria com a empresa de soluções biológicas, Biotrop, um dia de campo voltado à apresentação de novas tecnologias biológicas para o manejo integrado de pragas na cotonicultura. O encontro foi realizado em uma fazenda na região de Cristalina e Luziânia (GO) e reuniu representantes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), pesquisadores brasileiros e membros de organismos internacionais.
O foco da programação foi verificar o uso de biológicos no controle do bicudo-do-algodoeiro, principal praga da cultura no país, analisando os resultados obtidos com novas ferramentas biológicas desenvolvidas para complementar o manejo tradicional da lavoura. A proposta da iniciativa foi aproximar os órgãos reguladores da realidade prática do campo e ampliar o diálogo entre pesquisa, indústria, governo e produtores.
Tecnologia desenvolvida no Brasil
Durante o evento, a empresa que foca exclusivamente em tecnologias biológicas e naturais para a agricultura, apresentou uma nova ferramenta biológica descoberta por pesquisadores da Biotrop no Pantanal para o controle do bicudo-do-algodoeiro, baseado na cepa do fungo Cordyceps javanica (Isaria), que mostrou capacidade para conter a proliferação do inseto. A empresa realizou demonstrações em áreas de aplicação e apresentou resultados preliminares da tecnologia que coloniza o bicudo com fungos na lavoura.
Representando a companhia, Ricardo Hendges afirmou que a tecnologia tem potencial para promover a sustentabilidade da produção sem comprometer a eficiência no manejo da praga. “Sem dúvida alguma, é uma solução inovadora e sustentável, que vai trazer excelentes ganhos para toda a cotonicultura brasileira.”
O diretor executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero, afirmou que iniciativas como essa ajudam a fortalecer a posição do Brasil como referência internacional em produção sustentável de algodão. “Quando aproximamos produtores, pesquisadores, empresas e órgãos reguladores dentro do campo, criamos um ambiente de construção conjunta. O futuro da cotonicultura passa pela inovação, pela sustentabilidade e pela adoção de tecnologias que conciliam produtividade e responsabilidade ambiental”, afirmou.
Papel dos bioinsumos no manejo integrado de pragas
Segundo o diretor da Abrapa e proprietário da fazenda que sediou o encontro, Carlos Alberto Moresco, a utilização de bioinsumos na propriedade teve início há mais de dez anos, primeiro como uma alternativa para reduzir os impactos do controle químico. Ao longo do tempo, no entanto, a prática passou a ocupar um papel estratégico, impulsionada pelas exigências do mercado internacional e pela pressão sobre os custos de produção.
Ao longo das demonstrações técnicas, os participantes acompanharam áreas tratadas com produtos biológicos voltados ao controle do bicudo e discutiram a integração dessas ferramentas ao manejo já utilizado pelos produtores.
Para Moresco, o uso de bioinsumos também fortalece o posicionamento do algodão brasileiro no mercado global, especialmente diante das exigências ambientais de compradores internacionais. “Os cotonicultores sofrem uma pressão muito grande vinda dos custos de produção, e a diminuição de princípios ativos químicos na cadeia melhora a margem e aumenta o valor agregado do algodão brasileiro, em função dos acordos internacionais. Então, o uso de biológicos também coloca o Brasil na vanguarda da produção sustentável”, avalia.
Entidades públicas e privadas tiveram imersão no campo
A especialista em coordenação de projetos de cooperação internacional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO),[BZ5.1] Adriana Gregolin, destacou que a visita técnica permite compreender de forma mais concreta os desafios enfrentados pelos produtores no manejo de pragas. “É importante a gente ver o nível tecnológico que o produtor de algodão tem hoje na sua propriedade. É importante a gente saber das dores desse produtor em relação ao manejo de pragas, especificamente aqui no caso, o bicudo-do-algodoeiro.”
Segundo ela, o avanço dos produtos biológicos representa uma mudança estrutural no modelo de produção agrícola e exige maior integração entre inovação e regulação pública. “A inovação tecnológica precisa vir para o campo para trazer soluções mais sustentáveis, soluções que tragam menor impacto à saúde humana e menor impacto ao meio ambiente. Os produtos biológicos são um caminho sem volta.”
Para a pesquisadora e analista da Embrapa Algodão Bruna Tripode, o contato direto com o campo contribui para aprimorar políticas públicas e acelerar processos ligados à agricultura regenerativa. “Esse momento de troca de experiências, onde nós saímos das nossas mesas de análise no laboratório e viemos conhecer a realidade do campo e as dores do produtor rural, é fundamental para o desenvolvimento de novas tecnologias para o algodão produzido no Brasil.”
Já o gerente de produtos da Anvisa, Juliano Malte, ressaltou que o diálogo entre produtores e reguladores é essencial para aperfeiçoar os processos de avaliação de novas tecnologias. “Para nós que ficamos no setor regulador é importante estarmos próximos do produtor rural, de onde é utilizada a tecnologia porque precisamos saber como é que isso de fato funciona na prática.”
Integração entre biológicos e químicos
Além das autoridades brasileiras, o encontro contou com representantes internacionais ligados à pesquisa agropecuária. A bióloga Daniela Vitti, mestre em gestão ambiental do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina (INTA), equivalente à Embrapa no país vizinho, destacou que as novas ferramentas biológicas não substituem completamente os defensivos convencionais, mas ampliam as possibilidades dentro do manejo integrado.
Segundo ela, o combate ao bicudo ainda depende fortemente do uso de inseticidas químicos, o que torna estratégica a incorporação de novas alternativas mais sustentáveis. “Os produtos biológicos, que a gente está vendo aqui no campo hoje, eles vêm para somar a esse manejo. Não é uma ferramenta que vem para substituir o químico, mas sim para a gente fazer essa integração, o manejo integrado de pragas, com o uso dessas novas tecnologias.”
A pesquisadora também ressaltou a importância da aproximação entre produtores e instituições de pesquisa no desenvolvimento de soluções adaptadas à realidade do campo. “É uma alegria imensa estar aqui hoje conhecendo o que o produtor e a pesquisa estão fazendo e desenvolvendo em conjunto para trazer soluções para a nossa agricultura brasileira.”
