Em sua primeira reunião de 2026, realizada nesta segunda-feira, 09 de março, a Câmara Setorial do Algodão e Derivados analisou o atual cenário de produção da pluma, que atualmente enfrenta de margens apertadas e desafios estruturais para uma das commodities mais importantes da balança comercial brasileira. O encontro reuniu produtores, exportadores e representantes da indústria têxtil para proposição de soluções para os desafios macroeconômicos nacionais e em meio à tensão da geopolítica internacional.
O setor enfrenta a alta nas taxas de juros da economia, o encarecimento do diesel e o retorno da incidência de PIS/Cofins sobre fertilizantes. Somado a isso, o aumento do preço do barril de petróleo acima dos US$100, em decorrência do conflito entre Irã e Estados Unidos, eleva os custos do frete internacional.
O desafio da competitividade
De acordo com o presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (ANEA), Dawid Wajs, a qualidade do algodão brasileiro está cada dia melhor, atingindo um alto padão em características intrínsecas nunca vistos anteriormente, isso permitiu o acesso do Brasil a mercados mais exigentes. No entanto, o avanço técnico esbarra no consumo global totalmente estagnado.
O baixo preço do poliéster continua sendo um dos maiores desafios para os produtores de algodão, que ao invés de disputarem mercado com as fibras sintéticas estão concorrendo entre si, o que não resolve o problema do consumo. “Apesar da competitividade logística brasileira no subcontinente asiático, acordos bilaterais dos Estados Unidos com grandes compradores, como Índia e Bangladesh, têm deslocado a demanda para a fibra norte-americana", analisou Wajs.
Estratégias para aumentar a demanda
Diante da paralisia do consumo mundial, o setor busca alternativas. O diretor de Relações Internacionais da Abrapa, Marcelo Duarte, apresentou quatro eixos de ação do Cotton Brazil para recuperação de mercado e impulsionamento de vendas do algodão brasileiro. O trabalho será focado no desenvolvimento de Políticas públicas; Inteligência e alinhamento internacional; P&D e parcerias; Comunicação e promoção.
Para o presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, o aumento do consumo do algodão deve estar mais atrelado ao valor agregado do que na diminuição dos custos. "Não conseguiremos diminuir o custo, mas podemos aumentar o reconhecimento de atributos como certificações ambientais, características do algodão e outras qualidades do algodão brasileiro", afirmou. Pimentel também citou a saída da Indorama, indústria petroquímica asiática com filial no Brasil, da produção de poliéster no Brasil por falta de competitividade.
Tensões regulatórias
Durante a reunião, o Diretor Executivo da Abrapa, Marcio Portocarrero, citou as ações da Abrapa para contornar possíveis impactos na cadeia do algodão de uma série de políticas de governo. A primeira a ser abordada, foi a política de preços mínimos para o algodão brasileiro. O preço mínimo definido pelo governo federal atualmente é de R$ 114 por arroba, valor que já não reflete a realidade produtiva do algodão. A entidade propôs ao Ministério da Agricultura o reajuste para R$ 122 por arroba. De acordo com Portocarrero, “A conjuntura global não é favorável, tanto de mercado de consumo de fibras naturais quanto do aumento de custo de produção no que tange o frete e os fertilizantes. Não sabemos o impacto futuro da guerra entre Estados Unidos e Irã. Todos esses fatores tendem a influenciar o custo de produção”.
No âmbito do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), o governo federal, sinaliza a preparação de um banimento de agrotóxicos considerados ultra perigosos. A proposta que visa reduzir o uso de defensivos químicos no campo pode afetar a produtividade do setor agrário se não for trabalhado enquanto política pública que leve em consideração a competitividade do setor produtivo nacional. A preocupação do setor é que o Pronara se transforme em um instrumento que extrapole competências legais e ameace o Marco Regulatório dos Defensivos. Em relação ao projeto de modernização da jornada de trabalho no Brasil, Portocarrero confirmou que a Abrapa assinou manifesto proposto pela Frente Parlamentar da Agropecuária para que o projeto de lei que pretende modificar a escala de trabalho não prejudique o desenvolvimento da cotonicultura nacional.
Entrada da Abiove na Câmara Setorial
Uma das novidades anunciadas na reunião foi a entrada da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) como membro da Câmara Setorial. Visando o interesse do mercado asiático em caroço do algodão e farelo, a Abiove, representada pela consultora Fátima Parizzi, destacou a necessidade de alinhar o desenvolvimento de sementes com a produtividade da fibra, tratando a cultura como uma cadeia produtiva integral.
Próximo encontro
A próxima reunião do setor ocorrerá no dia 25 de junho, durante o ANEA Cotton Dinner, quando espera-se que os desdobramentos do pedido de reajuste do preço mínimo já tenha resposta oficial do governo.
